quinta-feira, 25 de junho de 2015

SOBRE CHUPAR, SOBRE O CAPETA E SOBRE A ESCOLA

Quem ou o quê te autoriza a hierarquizar o grau de importância das coisas que faltam na Universidade, que faltam na Escola?

Você tem o direito de definir se a repressão que o outro sente é maior ou menor (em importância) do que o maior ou menor dos seus problemas?
Aprenda: trata-se de outro corpo, de outra vida, de outra experiência. Então, respeite. Achar que a sua vida é medida para qualificar o problema de alguém é um erro. Uma atitude autoritária. Uma falta de respeito.

Gritar num microfone que "chupa rola ou boceta" foi um ato de enfrentamento, em reação à uma atitude preconceituosa praticada por uma professora, uma formadora de outros professores. Te digo, não precisamos de professores para nos ensinar ser preconceituosos. É melhor não aprender, é melhor não ter professor, é melhor que não houvesse escola. Seria melhor desaprender, sempre.

Ao gritar tais palavras de ordem estamos sim, reivindicando (e não buscando) respeito, pois respeito não é uma mercadoria que encontramos nas prateleiras dos supermercados da vida. Respeito construímos, com luta, com enfrentamento, na rua, em coletivo, reivindicando.

Ontem fomos meia dúzia porque muitos outros professores, gays ou não, e estudantes, gays ou não, não sentiram a nossa dor ou estavam ocupados com outros problemas. Ontem, dentre essa meia dúzia, não havia somente gays e lésbicas. Havia heterossexuais que querem construir um mundo menos hipócrita, mais justo. Um mundo no qual as diferenças sejam alvo e objeto de direito. O direito é a medida social do respeito.

Na verdade, o grito era "eu chupo pau / chupo boceta / se for por inferno / chupo até o capeta". A "rola" acho que foi ruído da mensagem que o Boechat mandou pra outro preconceituoso.

Bom, como professor, digo que esse grito de ordem foi o mais adequado dentre todos os outros proferidos. Por que? Porque a atitude a que o ato recriminou foi justamente um argumento religioso, segundo o qual a vida de um homem cristão branco (talvez heterossexual) portador de uma doença rara, valeria mais que a vida de milhões de LGBTT's que recebem dinheiro do Ministério da Saúde (sim, da Saúde) para realizar sua parada Gay. Por que da saúde? Porque a AIDS é um problema mundial e o Brasil, graças a suas políticas públicas setoriais (população LGBTT, por exemplo) desde o governo neoliberal da era FHC, economiza milhões em prevenção. Apoiar as paradas gays não é uma questão de simpatia, mas de economia.
Questionar tal política de governo baseada num caso particular de doença rara é no mínimo falta de condições para precisar os elementos de uma comparação (e olha que aprender a comparar é tratado numa disciplina chamada "metodologia científica". Acho que muitas pessoas estão faltando a essas aulas...).

Bom, mudando de pau pra cacete, voltemos à "falta de respeito".

Quer dizer que proferir palavras "pau" e "boceta" em público é falta de respeito? Canso de ouvir essas palavras nos espaços públicos, na presença de pais, avós, crianças... De forma indireta ou explícitas, nas músicas de sertanejo universitário, de arrocha, de funk, de forró, de brega... nos carros que passam por nós com o volume nas alturas. E nunca vi a GPT parando esses carros para multá-los por poluição sonora. Muito menos por atentado ao pudor. Sem hipocrisias, por favor!

Chupar essa ou aquela parte do corpo de uma mulher ou de um homem não é pecado! Que eu saiba, usar camisinha sim, transar fora do casamento, trair o cônjuge e outras 'cositas mas' é pecado (para os cristão, veja bem!).
Ah, entendi: o "pecado" ou a "falta de respeito" não é falar essas palavras em público, no microfone, na maior altura, na porta de uma universidade pública, mas A Falta de Respeito é "quem" fala. A Falta de Respeito não é a palavra em si, mas "quem pratica" o seu significado e, em alguns casos, quem a profere. A Falta de Respeito, então, é homem chupar homem, mulher chupar mulher. Se a palavra foi proferida por um hétero é autorizada? Se foi por um veado ou por uma sapatão é "falta de respeito"?
[Atenção: o trecho a seguir contém ironia] Isso é normal e natural, pois, afinal, essas pessoas nunca tiveram voz, nunca tiveram um estado republicano, de direito que defendesse, nunca tiveram condições objetivas de se auto-representarem, não é? Menos ignorância, por favor.

Um homem dizer que é gay é uma falta de respeito? Um homem beijar outro homem no espaço público é uma falta de respeito? Certas mulheres dizer certas palavras em público é mais condenável que outras? Um é mais igual que outro? Onde, realmente, está a falta de respeito?
Eu não posso andar de mãos dadas com meu companheiro na rua porque estou desrespeitando seu filho, que é criança? Porque seremos um 'mal' modelo pra ele? "Peraí", deixe-me entender: eu, que uma vez ou outra serei visto por seu filho representarei um modelo mais forte do que você que o criou? Que mora e cuida dele todos os dias?  Mais racionalidade, por favor!

Um professor usar de seu lugar de poder para acessar o corpo de uma estudante é até lindo e se 'tiver amor' e acabar em casamento, mais ainda. Na maioria das vezes, é apenas uma fichinha no banco imobiliário dos 'machos'. Um professor cometer o crime da bigamia é permitido afinal, "ele é homem" (se fosse uma mulher seria uma "vadia"). Uma professora fazer valer seus valores religiosos, numa escola pública de estado laico e de direito, dentro de uma sala de aula ou publicamente pra reprimir a orientação sexual ou religiosa de alguém (às vezes, até de seus próprios estudantes), não é falta de respeito, é opinião e deve ser 'respeitada' [mais uma vez, esse trecho conteve ironia].
Um estudante que abusa de seus 'poderes de macho' para tocar ou expor o corpo de outras estudantes, menores de idade, inclusive nas redes sociais, não é assédio sexual? É excesso de hormônio ou imaturidade decorrente de sua juventude... por favor, menos hipocrisia!

Nós estamos numa universidade, lugar por excelência do pensamento crítico (mas que também deveria ser o lugar da proposição e da prática política). Nós estamos formando professores e professoras, para atuar de forma transformadora, em todos os outros espaços sociais: escola, igreja, família, associações... Nós precisamos combater a hipocrisia e defender a felicidade social e individual, total e irrestrita. Nós devemos aprender a respeitar a si e ao outro, em verdade. Nós precisamos construir relações mais libertárias com nossos corpos. Nós devemos combater as estruturas que provocam a injustiça, a exclusão, a dor e a tristeza. A diferença não está no outro, mas dentro de mim. A diferença me constitui, mesmo que seja por negação.

Não vou pedir amor. Não vou pedir "mais amor, por favor". Eu exijo mais amor. Eu tenho direito a mais amor. Eu tenho o dever de amar mais.

Cidade de Goiás,
24 (kkk) de junho de 2015

Euzebio Fernandes de Carvalho
(professor, historiador e, dentre muitas outras coisas, gay)