segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A juventude, a rainha e a revolução

[Quem tem medo de Maria Antonieta? ou melhor, que homem (hetero) não tem medo de uma inteligente, senhora de si, rica, jovem e bela? parece que vi alguns machos resmungando…? Provavelmente, para a maioria dos homens de sociedades conservadoras e tradicionais (caso do nosso sertão de cada dia, povoado de varões “desamparados intelectualmente”, para usar uma expressão do querido professor Eguimar Felício) somente os dois últimos adjetivos seriam bem vindos em uma mulher. Por sua vez, o filme Maria Antonieta poderia assustar não somente esses homens como vários outros ‘tipos’. Principalmente, aqueles que tem medo/preconceito da/com a juventude. Particularmente, a dimensão que mais gosto no filme é a estética juvenil apesar do filme tematizar um período histórico muito discutido nos bancos escolares: a Revolução Francesa. Outro elemento que muito me agradou foi o efeito causado pela sobreposição de uma narrativa histórica a uma trilha sonora contemporânea. Lembro-me da cena em que o casal real desce as escadarias ao som de um rock new wave oitentista. a cena, sem o áudio não teria a metade do impacto. Para além do risco do anacronismo (como alertaria os puristas professores de história de plantão, sacerdotes da ‘verdadeira’ história - que seria garantida pelo “acontecimento oficial/real”) esta opção da jovem diretora pode ser um elemento a contribuir para ganhar a atenção dos jovens de nosso tempo para uma história tão antiga quanto necessária de ser estudada: a história de uma jovem rainha – deslocada, angustiada e rica – às vésperas da Revolução Francesa. Outra dimensão do filme que deve ser ressaltada é o fato da personagem principal/atriz/diretora serem jovens e experienciar o mundo a partir de sua condição etária e cultural. A mulher que é sempre objeto de representação, é aqui sujeito; protagonista e não coadjuvante. A questão da representação da mulher no cinema é tão nuclear que originou o famoso teste (já postado anteriormente aqui) que ao propor três perguntas sobre a representação feminina na telona, comerciais ou não, revelam o quanto o cinema manipula sua imagem, atribuindo sentidos e delimitando a identidade feminina a ser seguida. Sem mais, deixo vocês outra vez na companhia do filósofo Vladimir Safatle e suas ricas e peculiares análises]
Maria Antonieta, por Vladimir Safatle
Em 2006, a cineasta Sofia Coppola lançou um filme sobre Maria Antonieta. Ao contar a história da rainha juvenil que vivia de festa em festa enquanto o mundo desabava em silêncio, Coppola acabou por falar de sua própria geração.
Esta mesma que cresceu nos anos 1990.
No filme, há uma cena premonitória sobre nosso destino. Após acompanharmos a jovem Maria por festas que duravam até a manhã com trilhas de Siouxsie and the Ban-shees, depois de vermos sua felicidade pela descoberta do "glamour" do consumo conspícuo, algo estranho ocorre.
Maria Antonieta está agora em um balcão diante de uma massa que nunca aparece, da qual apenas ouvimos os gritos confusos. Uma massa sem representação, mas que agora clama por sua cabeça.
Maria Antonieta está diante do que não deveria ter lugar no filme, ou seja, da Revolução Francesa. Essa massa sem rosto e lugar é normalmente quem faz a história. Ela não estava nas raves, não entrou em nenhuma concept store para procurar o tênis mais stylish.
Porém ela tem a força de, com seus gritos surdos, fazer todo esse mundo desabar.
Talvez valha a pena lembrar disso agora porque quem cresceu nos anos 1990 foi doutrinado para repetir compulsivamente que tal massa não existia mais, que seus gritos nunca seriam mais ouvidos, que estávamos seguros entre uma rave, uma escapada em uma concept store e um emprego de "criativo" na publicidade.
Para quem cresceu com tal ideia na cabeça, é difícil entender o que 400 mil pessoas fazem nas ruas de Santiago, o que 300 mil pessoas gritam atualmente em Tel Aviv.
Por trás de palavras de ordem como "educação pública de qualidade e gratuita", "nós queremos justiça social e um Estado-providência", "democracia real" ou o impressionante "aqui é o Egito" ouvido (vejam só) em Israel, eles dizem simplesmente: o mundo que conhecemos acabou.
Enganam-se aqueles que veem em tais palavras apenas a nostalgia de um Estado de bem-estar social que morreu exatamente na passagem dos anos 1980 para 1990.
Essas milhares de pessoas dizem algo muito mais irrepresentável, a saber, todas as respostas são de novo possíveis, nada tem a garantia de que ficará de pé, estamos dispostos a experimentar algo que ainda não tem nome.
Nessas horas, vale a lição de Maria Antonieta: aqueles que não percebem o fim de um mundo são destruídos com ele. Há momentos na história em que tudo parece acontecer de maneira muito acelerada.
Já temos sinais demais de que nosso presente caminha nessa direção. Nada pior do que continuar a agir como se nada de decisivo e novo estivesse acontecendo.