quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Francisco, reconstrua meu corpo



[Abaixo, publico o texto “Francisco um destino”, de autoria de Marcello Escarrone, originalmente publicado no boletim eletrônico da “Revista de História da Biblioteca Nacional”. Antes, partilho contigo, algumas memórias que formam meu imaginário particular franciscano. O filme comentado no texto de Scarrone foi um dos responsáveis pela construção do imaginário pessoal sobre São Francisco de Assis, o santo católico italiano. Na verdade, o imaginário começou a ser criado bem antes, em minha infância. Praticamente, toda minha vida escolar foi dada num colégio católico, o Centro Educacional São Francisco de Assis, carinhosamente chamado pela sigla CESFA. Lá, fui matriculado no segundo semestre de 1988 (se não me ilude a memória). Foi meu primeiro contato com uma escola urbana. Ela funcionava nos fundos da igreja de São Francisco, em Imperatriz, no sudoeste do Maranhão, cidade banhada pelo maravilhosamente lindo rio Tocantins. Fui para(r) lá “para estudar”, como afirmava minha mãe. Eu não sabia (mas o tempo me revelaria depois) era o início do processo de separação dos meus pais. Minha mãe ficou na fazenda, aquela em que passei minha primeira infância. Meu pai foi para o Maranhão em busca de mais dinheiro, depois que “tinha desistido das dificuldades da vida na fazenda”. Queria fazer a vida antes que a velhice levasse de vez suas forças. Assim, aos dez anos, fui morar com o meu pai, numa cidade (relativamente grande) pela primeira vez na vida. Não vou seguir nesse relato das experiências de um garoto da roça numa cidade grande (para um garoto da roça toda cidade é grande!) porque o mote aqui é o filme de São Francisco. Lembro que na escola aprendi o canto de São Francisco de Assis, uma adaptação musical da oração atribuída ao santo. As palavras daquele canto me enchiam de bem estar, a cada manhã entoado. Na escola, li “O seminarista” de Bernardo Guimarães. Fiquei chocado. Meu fresco universo juvenil foi arrebatado por aquela leitura. Nos ‘finalmentes’ do livro (que é bem curto) lembro que estava dentro de um ônibus, em trânsito de Açailândia para Imperatriz. Quando cheguei ao destino, ainda não tinha terminado a leitura (ler em movimento foi sempre uma coisa de que enjoava muito). Ao descer, não continuei no caminho para casa. Procurei uma calçada com boa sombra e de lá somente levantei ao terminar a leitura. Dela, a imaginação pintou uma tela audiovisual (como acho que é toda memória, imaginação, pensamento, sonho…): a cena em que o seminarista se despe dentro da igreja. Anos depois, já na adolescência, assisti ao filme "Francesco: a história de São Francisco de Assis". No tempo em que as locadoras começaram a se proliferar, com o relativa popularização dos aparelhos e fitas em VHS. No filme, pela segunda vez, estava diante da cena do homem despido. Foi, igualmente, memorável. Não sei se o impacto se repetiu  porque minha sexualidade gay era particularmente sensível à evocação de um homem nu... talvez também por conta de certos medos privados. Um dos pesadelos recorrentes em minha infância era estar nu em público. Acordava muito perturbado depois de sonhar que na rua tinha que fugir de todos ao mesmo tempo que devia tampar minhas ‘vergonhas’. Possivelmente, por esses dois fatores, ambas cenas dos nus (a do seminarista e a de Francisco), acontecidas em situações tão particulares, marcaram-me tanto. Não vou desenvolver a ideia metafórica do ‘nu religioso’ (pois ela necessita de argumentos teológicos que não domino). Mas, em resumo, os dois nus estão inseridos num contexto religioso. Não tinha como essa aproximação de duas coisas, até então, radicalmente separadas, passar batida naquele jovem cérebro. Na cena do romance (ajudem minha memória aí) o homem se despe em frente ao altar, com a igreja lotada, antes de deixa-la. No filme, o homem se despe para nela entrar; se despe após seu pai desaprovar sua decisão de ‘entrar para a Igreja’. ‘tudo o que tinha’ era fruto do seu trabalho, lembrou-lhe o pai. Outro elemento marcante na minha memória franciscana (evidenciado no filme) foi o fato de Francisco ser um jovem rico, bonito e mulherengo. Três coisas que estavam, decididamente, bem longe de minha juventude. Exercer a sexualidade plenamente (e não sozinho no escuro do quarto ou da proteção das paredes do banheiro) era algo que eu desejava bastante naqueles dias. Depois disso (e menos virgem), continuei cantando a oração de São Francisco que sempre me apascenta. Adulto, aprendi um pouquinho sobre a Teologia da Libertação e Francisco se afirmou mais uma vez como herói. Antes, ele fora um modelo de vida e de espiritualidade. Agora, era um modelo de ação social contra a desigualdade (pois se despiu de tudo o que não lhe era essencial). Por isso o tomei como um homem contrário a toda e qualquer propriedade. Encantou-me também saber de sua vinculação com o mundo da Natureza: seu amor pelos animais (mesmo os ferozes). Lembro-me de assistir a uma celebração religiosa na antiga paróquia do Universitário, em Goiânia (cujo orago é São Francisco). Foi lá que visualizei o famoso Trânsito franciscano. O equilíbrio do snato com a natureza foi de tal ordem que chamou a morte por irmã. Artifício que nos quer significar que ele não morreu. Ascendeu diretamente aos céus sem passar pela experiência da morte. Esse é o Trânsito (corrijam-me aí os leitores dados à hagiografia). Por fim, que esses 'parêntesis retos' já se estendem muito, a última ‘grande’ memória pessoal relativa a São Francisco (que foi um (re)construtor da Igreja) nasceu ao visitar outra igreja a ele dedicada. Foi a do largo de São Francisco, na Carioca, na capital maravilhosa (e fedida) do Brasil: o amado Rio de Janeiro. O lugar em que se situa a igreja é alguma coisa em si de maravilhosa. Bem no centrão da cidade, em cima de um pequeno e discreto morro (de nome Santo Antônio?). Ainda nos tempos coloniais, foram construídas duas igrejas irmãs: a de são Francisco e a de Santo Antônio, onde  também funciona um convento religioso (agora, peço aos viajantes que me lerem a correção dessas informações). Atualmente, somente a igreja de Antônio ainda funciona como tal. A de Francisco foi transformada em museu de arte sacra. O motivo dessa transformação entendi quando nela adentrei: todas suas paredes são trabalhadas em madeira entalhada, com relevos barrocos e… cobertas de ouro! (mesmo que cenográfico, não importa). Fiquei tão impactado com aquilo… como se não bastasse tudo, um mal intencionado ainda colocou, num pequeno som, sobre uma cadeira, um cd (acho que com as músicas dos frades do convento) como promoção para sua venda. A música era linda (mas acho que ali, parafraseando o Zeca Baleiro, ‘qualquer beijo de novela me faria chorar’). E a coisa mais emocionante ainda não tinha acontecido. Quando enfim vislumbrei o altar central foi uma epifania! Ali, de pé, vi uma linda estátua barroca próxima ao teto. Era o famoso “Cristo Alado” de São Francisco, simulando em nós a mesma visão que Francisco teve no monte Alverne. Naquele lugar, naquela situação, naquela perspectiva, a experiência da visão franciscana é, atualmente, simulada, re-inventada, re-vivenciada. Aquela experiência dialogou com o imaginário pessoal e com a memória particular de São Francisco de Assis (que vivem em mim). Minhas lágrimas vieram denunciar o estado de êxtase que meu corpo experienciava, naquele dia, naquele lugar. Dedico este post a minha querida amiga Janira sodré Miranda, devota maior de São Francisco]



FRANCISCO, UM DESTINO. texto de autoria de Marcello Scarrone (sobre o filme Francesco: a história de São Francisco de Assis. Dir. Liliana Cavani, Itália, 1989)

 
Que os nossos leitores que reclamam pelo fato desta seção não dar muito espaço a comentários sobre filmes brasileiros nos perdoem. Não trataremos de uma produção nacional outra vez. Mas aceitem nossos benevolentes leitores o conselho de dedicar seu tempo e sua atenção a um filmede ser europeu,a Idade Media. iferente sobre um periodo  que, apesar de ser europeu, oferece um olhar diferente sobre um período singular da assim chamada Idade Média, com sua cultura de inspiração cristã e com a visão de mundo que ela proporcionava.
Afinal, a história nacional começa a ser contada a partir da chegada de navegadores portugueses que deste imaginário, desta cultura, partilhavam muitos elementos: mesmo sendo homens que viviam o inicio da modernidade, estavam intimamente moldados por aquela visão e ela acaba sendo influenciada desde suas origens por esse clima de religiosidade. Mais um elemento reforça os motivos do espaço dedicado a esta produção: a oportunidade de oferecer uma abordagem diferente e, de certa forma complementar, a leituras cinematográficas do período medieval que andam mais populares entre nós, como O Nome da Rosa, filmagem (1986, Jean-Jacques Annaud) do livro homônimo de Umberto Eco, ou O Incrível Exercito de Brancaleone (1966, Mario Monicelli), comédia sobre desajeitadas aventuras de um grupo de cavaleiros na Baixa Idade Media, ou ainda as várias produções hollywoodianas retratando William Wallace, Robin Hood ou Joana D’Arc.
O filme de que vamos falar aqui é Francesco – A Historia de São Francisco de Assis, produção da diretora italiana Liliana Cavani, de 1989. Não se trata exatamente de uma cinebiografia do fundador da ordem franciscana, e sim de uma leitura original e historicamente bem documentada da vida daquele que, por muitos aspectos, é a personalidade mais interessante do cristianismo medieval. Uma leitura realizada por uma diretora laica e alheia a simpatias para o catolicismo: exatamente por isso, sua visão dos fatos se destaca pelo rigor na reconstituição de personagens e ambientes, evitando com habilidade a queda no sentimentalismo. O Francisco da Cavani é o homem real, desfrutador dos prazeres da existência no inicio de sua vida e teimoso seguidor das pegadas de Cristo até o extremo da solidão e do abandono quase desesperado no resto de sua caminhada. Nada a ver, para nos entendermos, com o Francisco, poeta da natureza e louco romântico, retratado por Zeffirelli em Irmão Sol, Irmã Lua (1972).

Preocupação com a reconstrução histórica
Narrado com a técnica do flash-back, com a vida de Francisco evocada pelas lembranças de alguns dos seus primeiros companheiros, reunidos, após sua morte, junto com Clara (a primeira mulher a se empenhar no caminho proposto pelo santo), o filme mostra os pontos mais significativos de sua existência sem uma preocupação excessiva com a cronologia e sim com a reconstituição histórica. É o mundo medieval de uma pequena cidade italiana, Assis, no começo do século XIII, que é retratado, com seus conflitos e suas crenças. Um mundo no qual a sensibilidade religiosa cristã perpassa todos os setores da sociedade, em parte moldando uma mentalidade, em parte se digladiando com costumes e práticas não cristãs. Um mundo no qual a proposta de radicalismo evangélico de Francisco encontra adesões e recusas fortes. Um mundo talvez bastante longínquo de nossos parâmetros de juízo, de nossos metros de valores, mas um mundo que é preciso conhecer e penetrar para poder avaliar sem anacronismos ou estereótipos.
Destaque no filme para três pontos emblemáticos. O primeiro é a chegada em Roma, junto à corte pontifícia, do primeiro grupo franciscano, em busca de aprovação para a sua proposta de vida e sua regra. A simplicidade e austeridade de Francisco e seus companheiros e sua vontade de viver o Evangelho ao pé da letra contrastam com as limitações e os compromissos dos quais a autoridade do catolicismo se declara refém. No diálogo entre o Papa, os cardeais e os franciscanos está uma chave para a compreensão da sociedade medieval, da influência nela do cristianismo e da Igreja, e ao mesmo tempo de quanto há, nesta influência, de temporal, de histórico, de herdado de uma mentalidade imperial romana. A inveja do pontífice e de alguns cardeais pela liberdade com que Francisco pode viver o seguimento de Jesus mostra os dois lados da mesma moeda.
Um segundo momento significativo é o registro das dimensões que o movimento franciscano toma desde seus primeiros anos, com entusiasmos e inevitáveis diferenciações e problemas: jovens da Europa toda confluem em Assis em ocasião de uma reunião da incipiente ordem, preocupando o fundador que, como os históricos lembram, tudo queria menos ‘fundar uma ordem’. Os contrastes entre as várias tendências do franciscanismo já se manifestam. Terceiro ponto a destacar é a parábola final da vida do santo, com a solidão procurada numa tentativa de entender melhor a voz de Deus e sua vontade, diante de tantas dificuldades e incompreensões. Um Francisco quase desesperado, angustiado, peregrino por bosques e pedras inacessíveis: uma imagem bastante distante das tradicionalmente transmitidas pela iconografia ou pela memória popular, mas uma imagem historicamente real. Até o misterioso momento da resposta divina, que encerra o filme.   
“Traçar a curva de um destino que foi simples, mas trágico; situar com precisão os poucos pontos realmente importantes por onde passou essa curva; mostrar de que maneira, sob a pressão de que circunstâncias, seu impulso inicial teve de esmorecer, e seu traçado original, inflectir-se; colocar assim, acerca de um homem de singular vitalidade, esse problema das relações entre o individuo e a coletividade, entre a iniciativa pessoal e a necessidade social, que é, talvez. o problema essencial da historia: tal foi nosso intuito.” Não seja visto como pretensão atribuir ao menos parte destas intenções - formuladas pelo historiador francês Lucien Febvre na abertura de seu livro de 1927, “Martinho Lutero, um destino” – à diretora Liliana Cavani. A dela não foi obra de historiadora, e sim de artista, e a arte tem outras leis que não as da historia. Mas sua tentativa parece mesmo a de traçar a curva do destino de Francisco, e de se interrogar sobre a relação entre a genialidade e inspiração pessoal do homem e o eco disso na comunidade à qual ele se dirigia.
Uma palavra sobre os atores: além de vários coadjuvantes, se destacam Helena Bonham Carter como Clara e, sobretudo, Mickey Rourke como o próprio Francisco, num desempenho muito interessante, capaz de liberar capacidades interpretativas surpreendentes. Afinal, uma obra válida, até como documento de um tempo e de uma sociedade, que por isso nos induz a perdoar uma duração talvez excessiva.