segunda-feira, 12 de novembro de 2012

como loucos



Hoje assisti ao singular filme Like Crazy (que recebeu o título em português de Loucamente Apaixonados. os responsáveis pelas traduções poderiam pesar melhor seus interesses econômicos, não acham? este título é abertamente apelativo e vai levar o filme para públicos nunca dantes desejados. e dá-lhe frustração! certamente, a culpa não será do filme). 

Dirigido por Drake Doremus, ele foi lançado em 2011 e conquistou importantes prêmios no mais interessante festival de cinema dos EUA. (não, não é o Oscar, definitivamente). o filme levou o Best Picture Dramatic Grand Jury Prize e o de melhor atriz no Sundance Film Festival.


achei o ritmo da narrativa no início solta e errante. mas, apesar de lentamente acontecer o envolviemento com a história e com os personagens, a impressão inicial persistiu. o que me leva a crer que pode ser intencional (o que vem somar mais qualidade à obra).

trata-se de uma história de amor. mas narrada de uma forma nem um pouco óbvia. 

após aquele encantamento inicial que ("quase" - observação sádica) todos nós passamos em nossas histórias particulares de (des)amores, decorrem as certeiras complicações. no caso do filme, elas nascem de um fato em específico: a separação e a distância imposta pelo visto negado à namorada. a estudante inglesa, por decidir curtir seu amor por mais alguns dias além do que seu visto de permanência autorizava, não imaginava que isto lhe traria problemas futuros. Por conta da desobediência, é proibida de voltar aos EUA.

o romance eh embalado em referências a Paul Simon cantor de divide o gosto dos amantes protagonistas e traz mais uma textura melancólica à narrativa fílmica

enfim, este eh o ponto a partir do qual a história se torna complexa, viva e honesta. há que se dizer que as obviedades de um filme romântico não tem vez nesta película. as sempre cansativamente valorizadas cenas de sexo dos protagonistas (dá-lhe mercantilização/objetificação de corpos e sentimentos) aqui são perfeitamente inseridas na trama. isto é, demoram a aparecer. tornam-se uma cena entre tantas que constituem o cotidiano dos amantes. aparecem apenas quando a história está bem amadurecida. nada de sexo no primeiro dia. por falar em corpo, o ator até tem uma barriguinha (confiram na imagem abaixo) que traz veracidade e naturalismo à narrativa [aqui é o barrigudo falando].


também importa falar sobre a clara “ironia do destino” (a qual se referiria o “like crazy” do título?) presente na história. o casal apaixonado é obrigado a se separar. a distância torna-se a terceira protagonista da trama. outro elemento a trazer mais complexidade, desafios para ao enredo e certo realismo à narrativa. 

a partir da separação, o filme que era "romance" se traveste de "drama" (haveria história de amor ser drama?): ciúmes, carências, saudades, tristeza…

particularmene, o filme trouxe para o meu universo particular questões vividas, mas que até sua assistência, pouco refletidas. quando por motivo ou outro, temos que dividir nossos amores com a distância, coisas acontecem. não deixamos de viver, de experienciar. o que antes era dividido, torna-se unicamente vivido. isto traz mais grilos que chuva aleluia.

“sinto que não faço parte de sua vida”... “você transou com alguém enquanto estivemos separados?”… falas dos protagonistas que bem ilustram um pouco dos problemas que um casal tem que enfrentar quando passa a viver com a distância. outras sensações não são “ditas” por palavras mas por imagens (de desconforto, de estranhamento, de desencontro) e pelo incômodo silêncio da banda sonora. elementos sutis que encaharcam de verdade à história fictícia.


depois de alguns dias fora, sinto-me estranho toda vez que chego em casa. dou fé da vida que por ali passou sem mim. 

até ver este filme, depositava esta sensação na conta de minha loucura idiossincrática. o cinema me vez dividir com outros (bem distantes) tal problema. depois do filme, senti-me mais humano, mais comum.

o que o cinema não conseguiu fazer foi me explicar por que, depois da distância e da separação, quando estamos juntos, não conseguimos deixar de fora o que vivemos sozinhos.

ou melhor, explicou: é a tal loucura referida no título.