sábado, 10 de novembro de 2012

Palmas à Cronenberg

[Divulgo após a tradicional e adjetivesca introdução, o texto (compartilhado pela querida Suely Molina) sobre o novo filme de um diretor que muito admiro: o grande cineasta David Cronenberg (nascido em 1943…mesma idade de meus pais, portanto. isto me faz pensar sempre sobre o rumo que damos para nossa vida e o que fazemos com ela. risos).

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Toronto, 2011.

alguns filmes seus fizeram parte da minha infância-adolescência (quando é mesmo que começa uma e termina a outra? como sempre fui “atrasado”, muito de minha adolescência é relembrado/reconstruído como “infância”. aliás, somente depois de muita terapia me libertei da criança que dominava minha mente e corpo (mas que por muitas vezes ainda mostra suas forças sobre mim).

era idos da segunda metade dos incisivamentes bregas 1980's. ao menos era essa a opinião consolidada entre nós jovens da década seguinte. opinião juvenil que sob uma leitura freudiana, matava a década anterior para se construir como novo Outro. Hoje, as fotografias, filmes e outros indícios de tempo do início dos 90, mostram mais uma continuidade com o padrão estético da década anterior (isto é, com a breguice) do que uma ruptura.

na época de minha infância, o filme “A mosca” (The Fly, 1986) colocava seus ovos dentro de nossa imaginação e nas demais especulações telúricas cotidianas. (uma pausa para uma nota sobre a música que ouço agora “Need someone to hold”, do Creedence, pois encheu este momento de escrever o relembrar de tonalidades lindas e agradáveis)

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Depois de passada a adolescência (quase adulto, risos) voltei ao patrimônio fílmico de Cronenberg. foi uma experiência epifânica de descoberta de um novo mundo de sensações. uma verdadeira masturbação cerebral. meu cérebro, como todos, claro, é viciado nisto.

há quase dez anos, quando assisti Scanners (1981) o filme me pareceu genialmente bem construído. mas uma vez agradeci por estar vivo! (não é esta a função principal da arte, ou melhor, das outras pessoas?)


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imagem emblemática da obra de um jovem diretor

estava feito! encantou-me Cronenberg como fez Kubrick e Lynch. fui rever The Fly (1986, por aqui “A mosca”) que enquanto criação, obra, arte, técnica passou batido pela minha infância-adolescência (como tudo nessa fase passa, não é? ao mesmo tempo que comemos a vida, ela nos escapa...). tive a oportunidade de ver pela primeira vez muitas qualidades num filme ainda muito subestimado entre nós.

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depois, descobri que outro filme (realmente estranho) que havia sido impresso em  minha trilha audiovisual de vida, tempos antes, também era de Cronenberg: Crash (1996, “Estranhos prazeres”). filme perturbador sobre/de pessoas perturbadas. mais um ponto para Cronenberg!


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em 2005, como “marcas da violência” (a history of violence) declarei minha admiração incondicional (e um pouquinho madura) ao diretor. claro, muito do filme deve-se à atuação do Viggo Mortensen (o qual, a partir daí não deixei passar batido nenhum outro trabalho).

contudo, infelizmente, os outros títulos de Cronenberg não são tão facilmente encontráveis nas locadoras. tenho aqui o desejo contido (é isto o tesão?) de conhecer muito mais outros títulos de sua obra. mas não quero me sucumbir à baixa qualidade de áudio e vídeo que a minha claudicante internet oferece. prefiro continuar com a esta tesão, torcendo para que a morte não chegue antes de satisfazê-la]

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Agora, o texto de divulgação do novo filme de Cronenberg: “Bolha de niilismo” publicado no jornal O Popular, por Rute Guedes, em 09 de novembro de 2012
 
O mundo ambíguo e muitas vezes estranho do cineasta canadense David Cronemberg volta à telona com o suspense Cosmópolis, com Robert Pattinson – isso mesmo o galã vampiro da série adolescente Crepúsculo – como protagonista. O ator inglês interpreta um bilionário autodestrutivo que vive um casamento de fachada. Relações igualmente falsas regem toda a sua vida, isolada de um universo caótico. Baseado no romance do dramaturgo e ensaísta norte-americano Don DeLillo, o filme conta ainda com Paul Giamatti e Juliette Binoche no elenco.
O personagem principal, Erick Parcker, gênio prodígio das finanças, é um manipulador que usa as pessoas e as informações apenas em benefício próprio, o que não o impede de ter um comportamento autodestruivo. Durante o todo o tempo, ele só permite que bajuladores e funcionários medrosos o atendam. Quando não está fechado em casa, passa quase todo o dia, e a noite, em sua limusine blindada e bem equipada. O veículo de luxo tem banheiro, cama e funciona como ponto de encontro para negócios de todo o tipo, de reuniões de trabalho a programas com uma prostituta de luxo interpretada por Juliette Binoche.
O mundo lá fora também não é dos mais convidativos. A violência atinge níveis alarmantes, protestos e manifestações populares invadem as ruas e personalidades importantes do mundo das finanças e da política estão sob ameaça de uma onda de assassinatos. O presidente dos Estados Unidos está no grande rol de ameaçados e, com sua rede de informações, Parcker desconfia que ele mesmo pode ser uma vítima.
Mas o jovem elegante não entra em pânico. Sentindo-se acima de todos com seu aparato de proteção, ele não se importa com os conselhos de seu chefe de segurança e decide ir ao seu cabeleireiro de costume – é essa a parte principal do filme, já que o tal salão fica do outro lado da cidade. Trata-se da região onde ele passou sua infância.
 
Mundo estranho
Frio ao extremo, o protagonista de vez em quando sai do conforto de sua bolha de aço e rodas para se encontrar com a mulher de fachada num restaurante cinco-estrelas da cidade. A vida que o protagonista parece controlar, no entanto, por vezes lhe prega peças. Paul Giamatti interpreta um antigo empregado que quer se vingar do patrão. Ao contrário do antigo chefe, o homem é puro nervos, revolta, inveja e deselegância – mas o típico perdedor da cultura norte-americana pode dar mais dores de cabeça do que se imagina.
Em entrevista à Agência Estado, Cronemberg destacou que tudo que o personagem domina é mesmo a sua limusine. “Quando está fora dela, da sua zona de conforto, é desconectado e frágil. E não seria esta uma realidade dos nossos astros de cinema, dos jovens milionários do sistema financeiro, tecnológico?”, questionou o diretor em entrevista em Cannes. “Parker é um jovem que não se comunica com o mundo, que usa seu dinheiro para construir microcosmos em que se sente seguro e para quem dar uma volta a pé na rua é perigoso. Aparentemente, ele só quer cortar o cabelo, mas está tão fechado em seu pequeno mundo que o filme é uma metáfora para esta volta à inocência. O longa tenta detectar algo que nos está fugindo e para o qual temos de voltar”, comentou o diretor canadense.
O cineasta de obras notáveis como Videodrome, Mistérios e Paixões e Crash disse que a escolha de Robert Pattinson, conhecido pelo papel de vampiro, foi casual, quer dizer, o rapaz não foi convidado para interpretar uma metáfora de um morto-vivo num outro filme. “Vivemos uma época em que a juventude enfrenta um colapso de valores. É preciso mudar”, alertou Cronemberg.
Selecionado para o Festival de Cannes, o filme não foi premiado nem foi tão bem recebido pela crítica como boa parte de suas obras. Isso não justifica, no entanto, o lançamento frouxo de Cosmópolis no Brasil, principalmente pelo peso da carreira do cineasta – além de prestigiado, muitos de seus suspenses têm lançamento mundial e bilheterias consideráveis.
No Brasil, o longa-metragem foi lançado em 21 cidades no início de setembro. A praça de Goiânia foi deixada por último e sua chegada a um cinema da cidade se dá ao mesmo tempo de seu lançamento nas locadoras. Parecendo preocupada apenas com os blockbusters – às vezes um único título chega a ocupar até um terço do mercado, formado por 50 salas – a rede exibidora peca em atender à diversidade de seu público. Uma falha que não tem nada de ficção.
 
Cosmópolis: Canadá/EUA/2012
Direção: David Cronenberg
Elenco: Robert Pattinson, Paul Giamatti, Juiliette Binoche, Samantha Morton
Cine: Lumière Bougainville 3