quinta-feira, 1 de julho de 2010

"Caso 39", fala sobre o quê?

Case 39 (2006-2010) é um filme de gênero. Um misto de suspense e terror. A mão firme do diretor  imprime personalidade à sua narrativa. Há estilo, certamente. Comecei a ssistí-lo sem muitas expectativas. Logo fui encantado pela narrativa, e por certa disconfiança: uma obviedade instigadora. No início, os pais que tentavam desesperadamente matar sua filhinha, não me pareceram de todo culpados (Bizarro isto, não?). Esse foi o mote que me levou a trilhar a história.

A cópia que assistia era horrível: pirata, legenda PÉSSIMA (que se tornou uma atração à parte), áudio em descompasso com as imagens... um desastre! Sem falar que a capa pirata o apresentava como o novo filme de Alejandro Amenábar Ágora… Mesmo assim, a história que se iniciava me oferecia certa atração.

Trata-se de um filme de Christian Alvart, alemão, 35. De sua autoria, são: antibodies (2005), e Pandorum (2010). Bom, sobre o filme não vejo muito o que se dizer (não há nada de novo sobre o Equador, desta vez). Talvez, seu ponto central seja a construção do sentido do medo/terror a partir do corpo frágil de uma criança de 10 anos. Nesse sentido, culturalmente, o filme traz uma inversão de representações sobre a infância e a criança. Tradicionalmente, segundo uma forte influência judaico-cristã, os "pequeninos" chamados por Jesus foram recobertos - pelo menos a partir do século XIX, após a ascensão dos valores burgueses, no Ocidente -, de uma áurea de inocência e fragilidade. É justamente este o ponto invertido pelo filme.

Diz o Evangelho de Lucas: "Trouxeram-lhe também criancinhas, para que ele as tocasse. Vendo isto, os discípulos as repreendiam. Jesus, porém, chamou-as e disse: Deixai vir à mim as criancinhas e não as impeçais, porque o Reino de Deus é daqueles que se parecem com elas. Em verdade vos declaro: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, nele não entrará." (Lucas 18,15-17)

As representações do mal, presentes no filme Caso 39, invertem esta mensagem cristã. Nele, o mal nasceu e reside no corpo de uma criança. É um demônio em crescimento! Situação que cai perfeitamente em algumas pestinhas.

Ao longo da narrativa, talvez os momentos mais interessantes sejam aqueles em que vemos o medo sentido pelos adultos frente à pequenina menina de cabelos pretos e tez pálida como a de um defunto (sem falar nos olhos negros). A "pegada" do diretor relaciona-se, em alguma medida, à sua trajetória de vida: foi criado em um ambiente cristão ortodoxo. Aliás, o nome recebido de seus pais nos dá uma pista dos valores de sua família: Cristiano/Cristão.




Neste ponto, percebemos que o filme é sintoma de uma característica presente em nossa atualidade: a dificuldade dos pais em impor limites aos filhos. Esse sinal dos tempos marca a construção do sentido e do lugar do medo no discurso do filme. Certamente, a película dialoga com os impasses da educação familiar durante a infância, em nossos dias presentes. Quem já presenciou um happening satânico e infantil em um espaço público? O que chamamos de "birra" (ah seu menino birrento!). Estas cenas são tão constrangedoras para quem assiste quanto, imagino, para os pais. Uma criança caída ao chão em prantos e gritos é a visão do inferno! Muitos pais, acredito, sentem-se impedidos pelo olhar público a fazer qualquer correção no comportamento do infante. Quanto não seria útil um belo tapa na bunda birrenta!

Quanto a isto, vejam a fala do diretor, em entrevista ao Jornal do Brasil:
– Vejo a história dessa criança maligna como uma metáfora para a paternidade moderna. Os pais acreditam que querem o melhor para os seus filhos, não importa a que geração pertençam. Há 50 anos, os filhos que saiam da linha, muitas vezes, eram punidos com violência, até em público, e ninguém podia interferir. Hoje em dia, todos vigiam o comportamento dos pais em relação aos filhos, inclusive o Estado. O que pode ser uma coisa boa, contanto que não se cometa excessos. Há muitos livros sobre como criar um filho, as pessoas temem estar fazendo algo errado – compara o diretor, que sente o problema na pele. – Tenho três filhos, virei pai muito jovem, o primogênito já tem 10 anos, e me identifico muito com a questão.

Guardada milhas de distência, lembramos de outro filme com muitos mais predicativos do que este. Trata-se do ótimo "Deixe ela Entrar". É uma belo filme: complexo, bem realizado, que faz a mesma associação infância e malignidade, com muito mais qualidades.

No Caso 39, o destaque, além da atuação carismática, mas sem novidades da atriz Reneé Zellwegger, é a presença da mirim Jodelle Fernand (que interpretou uma jovem vampira no novo "Eclipse").

Mas o final óbvio (claro, o bem triunfa sobre o mal!) é literalmente um banho de água fria (também) em quem assiste.

vejam o trailer:


A edição do trailer, para assegurar o suspense que acompanha a primeira metade do filme, não dá a perceber quem é o monstro. Talvez, um exercício interessante seja, após o final do filme, re-assistir o começo, buscando identificar as fragilidades da narrativa. Este é um típico filme de reviravolta na narrativa. Exemplos clássicos são Os outros e Sexto Sentido. No Caso 39, quem parecia vítima no início, torna-se o algoz mor. Em prol da garantia do clima de suspense presente no início de narrativas deste tipo, muitos diretores forçam um pouco a barra, desrespeitando a inteligência do expectador. O que você sentiu?