terça-feira, 6 de julho de 2010

“Testemunhas de uma guerra” (Triage) / 2009

1988 é o tempo da matéria enunciada. A ação transcorre no Curdistão. Acompanhamos dois fotógrafos que  registram cenas de um acampamento curdo. Diz o médico após a triagem: “na minha vida solitária, tivemos oito guerras. Duas com os turcos, três com os iranianos e três com os iraquianos […] todas as vezes fomos derrotados. Isso é o que os curdos fazem melhor: ser derrotados”. A triagem decorre do diagnóstico do médico. As vítimas mais graves são executadas pelo próprio médico, enquanto outro soldado faz as preces. Acompanhamos uma ofensiva contra Saddan Hussein.

Mark, o fotógrafo irlandês é ferido na ofensiva e se vê na mesma situação dos outros feridos que passam pela triagem, momento em que o médico diz: “as pernas são o maior problema. Mas é sempre assim. Pernas, pernas, pernas. Para cada dez braços, já amputei dez pernas. As pernas modernas não são feitas para a guerra moderna”. Os diálogos deste personagem são bem elaborados. há uma certa altura, ele proclama: “a dor é sempre preferível à dormência”.

Ao contemplar uma fotografia, a namorada de Mark assevera: “A beleza é sempre esperançosa”

Quando percebem que os problemas de saúde de Mark é uma somatização dos traumas de guerra, decidem pelo tratamento psiquiátrico: “tudo é um jogo pra você, senhor Walsh?”, pergunta-lhe o especialista. –“Eu não sei. tudo parece um pouco… idiota”. Antes de pronunciar a última palavra, o fotógrafo inspira fundo, como a tomar coragem para pronunciar algo que demarcaria seu posicionamento naquele campo de poder, assim como a avaliar o suposto tratamento. –“Talvez seja. Mas estou tentando ajudá-lo. E, em quinze minutos, vou sair e serei pago, quer você responda às perguntas ou não. Enquanto você ainda ficará deitado aí, incapaz de andar. A essa altura, creio que a idiotice tenha várias formas” –“já esteve em uma zona de guerra, doutor” –“não. Mas já tratei pacientes que estiveram lá”. –“tudo bem, sem ofensa, mas não é a mesma coisa” –“não, não é a mesma coisa. Mas isso significa que só podemos compreender o que experimentamos diretamente?. Só quem foi estuprado pode aconselhar uma vítima de estupro?” –“Talvez”.

A “rapidez” das legendas é uma dificuldade a mais para o filme. O inglês da Irlanda é certamente mais “acelerado” que o da Inglaterra. que, para mim, já seria mais acelerado que o estadunidense. Certamente, Colin Farrel está tranquilo em um papel que remete sua cultura pátria.