sexta-feira, 26 de julho de 2013

"Manifestações de junho": textos sobre as manifestações populares no Brasil em 2013

[ola! divulgo a seguir alguns textos que achei interessantes em suas análises sobre as manifestações populares que acontece(ra)m no Brasil desde junho. elas coincidiram com a greve da UEG, capitaneada pelo Movimento Mobiliza UEG e que já foi motivo de alguns post anteriores. pretendo divulgar entre os textos, algumas fotografias tiradas por mim em algumas dessas manifestações. boa leitura!]


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TEXTO 4

"As Jornadas de Junho e sua Relação Causal", resenha escrita por Alexandre de Jesus Santos[1] sobre o livro MARICATO, Ermínia, [et al.]. Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. 1º ed. São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2013. 

 Na observação da história recente do Brasil, após o processo de redemocratização, presenciamos poucos acontecimentos sociais que reverberaram para além das fronteiras e que tiveram tamanha magnitude como as Jornadas de Junho. 

Isso não implica dizer que, posterior as mobilizações dos caras-pintadas na década de 1990, os movimentos sociais permaneceram em inércia. Inversamente, as contradições sociais que emergiram da base da sociedade capitalista, colocaram como imperativo para a classe trabalhadora, a necessidade diária de sobreviver em meio às inumeráveis adversidades do cotidiano. 

É na cotidianidade (LUKÁCS, 2012) que as contradições emergem, e é nela que precisam ser superadas. Deste modo, lutas diuturnas pela sobrevivência são travadas nas grandes e pequenas cidades, nos mais ostentosos rincões da riqueza social - gerados a partir da exploração da mais-valia -, até os mais inóspitos territórios da miséria. Seja nas favelas, nos bairros, assentamentos, ocupações, locais de trabalho ou de desemprego etc. as contradições sociais estão presentes e são enfrentadas cada uma à sua maneira e dentro de suas possibilidades objetivas. 

A forma como os problemas se manifestam fragmentados hodiernamente acaba por impelir atuações particulares por parte dos movimentos sociais, implicando tanto no corporativismo quanto no isolacionismo. Esse caráter multifacetado da realidade mostra-se, na manifestação particular do problema, enquanto realidade caótica e desconexa, imutável e incognoscível, cuja ordem só parece estar condicionada a percepção subjetiva do sujeito. 

No entanto, embora tal movimento tenha despontado como um todo fragmentado e desarticulado, as pautas apresentadas durante as manifestações de junho, que representavam as demandas objetivas da sociedade, estavam todas direta ou indiretamente relacionadas à crise estrutural do capital (MÉSZÁROS, 2011). 

 A inexistência de instituições representativas, sua autonomia em relação a partidos políticos, sindicatos e associações, bem como a multiplicidade das exigências - que foram desde questões relacionadas a mobilidade e alto custo do transporte coletivo urbano, até a corrupção do sistema político e suas instituições representativas -, foram elementos marcantes nas Jornadas de Junho e sinalizaram, ainda que de forma embrionária, à necessidade de superação do sistema político enquanto tal dado seus limites objetivos no sentido de atender os imperativos societais. 

 Neste sentido, "Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil", livro publicado no segundo semestre de 2013 através da parceria entre as editoras Boitempo e Carta Maior, é uma tentativa de compreender, avaliar e projetar os acontecimentos das Jornadas de Junho. 

Entre os intelectuais que colaboraram para a referida edição encontram-se nomes como David Harvey, Slavoj Žižek, Rui Braga, Ermínia Maricato, etc., cujos artigos publicados no livro vão desde a defesa da ampliação e radicalização da democracia burguesa pautando a efetivação dos direitos sociais (democratas radicais e reformistas), até autores que apontaram para a necessidade de superação da sociabilidade burguesa. É impossível, deste modo, estabelecer uma unicidade entre os artigos. Cada autor apresenta sua própria versão sobre os acontecimentos munidos de distintos referenciais teórico-metodológicos. 

Assim, os artigos apresentam tanto semelhanças quanto diferenças, de tal modo que uma das características que podemos estabelecer como pedra basilar das formulações contidas no livro é a tentativa criteriosa de compreender e estabelecer as relações causais das Jornadas de Junho. Esse esforço, por sua vez, na maioria dos casos não deu conta de apreender a profundidade e a complexidade dos acontecimentos de junho, provavelmente em função de sua proximidade e da fragilidade analítica de alguns autores. 

A própria característica multifacetada das manifestações implicou em análises que contemplassem os diversos aspectos das Jornadas de Junho, transcorrendo desde a problemática da sociabilidade burguesa no mundo urbano e dos movimentos sociais no contexto neoliberal, até exames que buscaram ponderar sobre a repercussão dos acontecimentos nos meios de comunicação social e o papel das novas mídias enquanto mediação para as mobilizações. 

 É perceptível, no entanto, que a abordagem dos problemas relativos ao modo de ser urbano não foram articuladas com a crise estrutural do capital - excetuando alguns autores que fizeram esse vínculo de forma mais direta. Por conseguinte, muitas análises pairaram no "empiricismo" dos fenômenos não conseguindo apreender suas conexões internas e relações causais. 

Conforme argumentação inicial, apesar dos problemas sociais aparecerem na cotidianidade como mônodas, um todo desarticulado e desconexo, encontrar atrelamentos causais entre tais problemas imediatos e sua articulação interna com a crise estrutural compete aos estudiosos e observadores atentos. 

 Evidentemente, as dificuldades concretas enfrentadas pela população brasileira são diferentes daquelas existentes nos países da Primavera Árabe, EUA (movimento Occupy Wall Street) e Europa (graves convulsões sociais nas penínsulas itálica e ibérica), mas todas elas estão sobre as mesmas determinações estruturais sociorreprodutivas do capital como afirmou o Žižek (2013). Em cada uma dessas manifestações singulares os problemas se apresentam de forma especial, mas todas estão intrinsecamente ligadas à reprodução do capitalismo em sua crise estrutural. 

Segundo Lukács, a forma como as questões sociais se manifestam na imediaticidade "[...] pode conduzir a distorções - ainda que de outro tipo - da verdadeira constituição do ser" (2010, p. 76), o que leva a sociedade a negligenciar completamente a essência dos problemas e considerar como verdadeira apenas suas manifestações. 

 Nessa perspectiva, afirma Žižek que "a luta pela interpretação dos protestos não é apenas "epistemológica": a luta dos jornalistas e teóricos sobre o verdadeiro teor dos protestos é também uma luta "ontológica", que diz respeito à coisa em si, que ocorre no centro dos próprios protestos" (2013, p. 103), e acrescentaríamos, um luta ideológica. Deste modo, não se questiona o sistema político enquanto o empecilho objetivo para resolução dos problemas sociais, mas apenas as personificações do poder político como causadores sui generis de tais contradições. Do mesmo modo, questões relacionadas à saúde, educação, segurança, transporte etc. são observadas enquanto ineficiência na gestão dos recursos públicos, ou seja, na forma como são geridos pelo partido político que "[...] está segurando o timão do Estado. [Mas não][2] [...] na essência do Estado" (MARX, 2010, p. 38). 

Essa impossibilidade de apreender a essência dos fenômenos enquanto causadores das mazelas sociais, resulta em pautas reformistas que priorizam as pequenas modificações no interior do capitalismo em detrimento das transformações estruturais. Obviamente esse fato decorre de determinações diversas que perpassam desde as manifestações ideológicas de legitimação do capitalismo até os brutais processos repressivos enfrentados pelos movimentos sociais cotidianamente criminalizados. 

Neste sentido, alguns artigos, por não estabelecerem essas conexões com a crise estrutural, flutuam na superficialidade dos fenômenos não percebendo que as consequências da crise transcendem a macroeconomia, atingindo todos os aspectos da vida social (Mészáros, 2004). Assim, a "[...] crise estrutural da política - afirma Mészáros - é parte integral da longa e pustulenta crise estrutural do capital. Ela é ubíqua e, consequentemente, não pode ser solucionada pela manipulação de forma autoperpetuadora e apologética de cada um de seus aspectos políticos isolados" (2006, p. 113) 

 Finalizando o livro, Žižek consegue sintetizar a necessidade de transcender à imediaticidade das reivindicações, reformistas e nacionais para que um futuro, de outras possibilidades para além da barbárie (MÉSZÁROS, 2004), possa se efetivar afirmando que "talvez o próprio futuro dos protestos em curso depende da capacidade de se organizar essa solidariedade global" (2013, p. 108). 

Deste modo, a leitura de Cidades Rebeldes, apesar das ressalvas, constitui substrato material que fornece elementos para um debate inicial sobre as Jornadas de Junho que, em si, constitui um marco histórico cujas consequências ultrapassam qualquer análise realizada "no calor da hora" e talvez, dos resultados de todos esses movimentos se articulando contra o capital, dependa o próprio futuro da humanidade. 

Referências: 
LUKÁCS, György. Prolegumenos para uma ontologia do ser social: questões de princípios de um ontologia hoje tornada possível. Tradução: Lya Luft e Rodnei Nascimento e supervisão editorial Ister Vaisman. São Paulo: Boitempo, 2012. 
MARICATO, Ermínia, [et al.]. Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. 1º ed. São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2013. 
MARX, Karl. Glosas Críticas ao Artigo: "'O rei da Prússia e a reforma social'. De um prussiano". In: MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Luta de Classes na Alemanha. 1º Ed. São Paulo: Boitempo, 2010. 
MÉSZÁROS, István. O Poder da Ideologia. Trad. De Paulo Cezar Castanheira. São Paulo: Boitempo, 2004. ___. Século XXI: socialismo ou barbárie? Trad. de Paulo Cezar Castanheiras. 1º ed. São Paulo: Boitempo, 2012. ___. A crise estrutural do capital. Tradução de Francisco Raul Cornejo... [et al.]. 2º ed. rev. e ampliada. São Paulo: Boitempo, 2011. __. A crise estrutural da política. Disponível em: < http://resistir.info/meszaros/crise_estrutural_da_politica.html>. Acesso em 01 de Abril de 2014. 

ŽIŽEK, Slavoj. Problemas no paraíso. In: MARICATO, Ermínia, [et al.]. Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. 1º ed. São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2013. 

[1] Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade - PPGMLS - da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia; graduado em História pela mesma instituição; especialista em Sociologia e Ensino de Sociologia pelo Centro Universitário Claretiano; pesquisador do GEILC - Grupo de Estudos de Ideologia e Luta de Classes -Museu Pedagógico/UESB; membro do Coletivo LABUTA. Bolsista de pós-graduação CAPES/CNPq. E-mail: alexandre_magno2@hotmail.com [2] Grifo nosso.
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TEXTO 3 

"A voz das ruas", por Luís Augusto Fischer

Zero Hora. SEGUNDO CADERNO. Porto Alegre, 27 de julho de 2013 (acesso em 01/08/2013). http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-lazer/segundo-caderno/noticia/2013/07/luis-augusto-fischer-a-voz-das-ruas-4214825.html
Descrente da proverbial oposição entre ação e pensamento, o governador Tarso Genro mantém interesse vivo no debate teórico. Tanto que convidou algumas figuras para conversar, em público, sobre o tema urgente das manifestações – como entender a voz das ruas? Foi na segunda passada, no austero salão Negrinho do Pastoreio, do Palácio.

Convidado também eu, ao lado de parceiros bem mais habilitados para o tema, como o próprio Tarso, Marco Aurélio Weissheimer e Marcos Rolim, aceitei, mais por vaidade do que por capacidade. Tentei esboçar um comentário, que saiu meio truncado, por limitações pessoais de oratória. Tento aqui expor de modo um pouco mais organizado o mesmo pensamento. E juro que não vou dizer que não dá pra entender nada, que o barulho é variado demais, que tem gente falando coisas as mais disparatadas – tudo isso é verdade e já foi dito. Mas também não prometo esclarecer muito, porque, bem, é que não dá pra entender nada, o barulho é variado demais, etc.

Fim de ciclo
É bem provável que estejamos vivendo o fim de um ciclo. Alguns marcam o ano de 1988 como início dele, na Constituinte, numa visão que centraliza a política institucional. Outros poderão marcar a eleição de Fernando Henrique Cardoso, no já distante 1994, inaugurando governos liderados por paulistas. O recorte estadual não é de todo trivial, porque, faça as contas comigo, desde a República Velha não havia um governo significativo de paulista – o gaúcho Getúlio ficou de 30 a 45, depois veio Dutra, mato-grossense, Getúlio de novo, em seguida o mineiro Juscelino, sucedido pelo sim paulista Jânio Quadros, maluco que ficou meio ano no poder e renunciou, quando então entrou Jango, gaúcho, derrubado pelos militares, pela ordem o cearense Castelo Branco, uma enfiada de três gaúchos (Costa e Silva, Médici e Geisel) e o carioca Figueiredo, que se recusou a passar o poder para o maranhense Sarney, que tinha herdado a vaga do mineiro Tancredo, e enfim o primeiro eleito diretamente em décadas, o improvável alagoano Collor, derrubado em favor do mineiro Itamar. Aí FHC e Lula.

São Paulo não é apenas a maior concentração de renda e atividade econômica do país, mas também o berço dos dois partidos mais consistentes desde a redemocratização, o PSDB de FHC (que por sinal nunca emplacou aqui, além de carregar divisões internas medonhas) e o PT de Lula. Pois dois mandatos de Fernando Henrique e dois de Lula nos mostraram a força de São Paulo, até mesmo na eleição de Dilma, abençoada por Lula.

Claro que há distinções enormes entre FHC e Lula no poder, o que se poderá medir pela ativação da economia interna, a partir dos contratos e dos financiamentos bancados pelo Estado, promovida tenaz e eficazmente por Lula e Dilma, sem falar na distribuição muito mais significativa de renda também dos petistas. Aliás, essas duas práticas, combinadas, estão no centro do modelo de desenvolvimentismo (Tarso tem chamado de "lulodesenvolvimentismo") que talvez tenha agora encontrado seu limite estrutural. Limite dado pela ordem internacional, na qual o Brasil tem papel reduzido e pouca margem de manobra, quase toda ela, ao que parece, já utilizada até aqui.

Levando a cabo esse modelo, o governo federal está proporcionando uma rara situação de pleno emprego e aquecimento forte da vida econômica, com uma digna distribuição de renda, o que é ótimo. Mas para cumprir esse modelo, forçou algumas barras, de que é possível ver dois exemplos ligados às manifestações recentes: um, a desmesurada força dada à economia do transporte individual, contra soluções para o coletivo, o que dá emprego mas entope nossas ruas e acaba com a paciência e o bom ar; outro, a insuficiente atenção dada aos índios, sejam eles os desesperados guarani-kaiowá, que despertaram uma bela onda de solidariedade virtual, sejam os ainda saudáveis guardiões da região de Belo Monte, lá no Xingu.

Motes
Não há como expandir muito esse modelo de desenvolvimento, mesmo que seja socialmente inclusivo como tem sido, na direção de uma sociedade de tipo estadunidense. Não tem como: os EUA têm algo como 8% da população mundial e consomem, pelo que ouvi, em torno de 25% da energia produzida no planeta. Nem o Brasil, nem ninguém poderá, em qualquer hipótese, repetir. (O ministro Joaquim Barbosa dá a pinta de gostar muito daquilo, tanto que, parece que atropelando a lei que veda certas iniciativas empresariais a juízes, criou uma empresa para comprar mais barato um apê em Miami. Além de tudo, um mau gosto notável.)

A ecologia não é causa distante para quem foi às ruas: ela está incorporada ao comentário cotidiano, nas cidades. A valente luta pelas bicicletas nas ruas faz parte disso, assim como o repúdio às soluções urbanísticas que centralizam ou exclusivizam o veículo particular. Mas o que parece realmente ter acendido a mecha subjetiva foi a Copa. Brasil, o país do futebol, o maior vencedor nos torneios de seleções, só tinha sediado uma Copa, lá em 50, quando talvez 80% dos habitantes agora vivos não tinha nascido – e a perdemos. Agora vamos fazer a Copa, e para ela as capitais estão em obras de grande impacto: a Copa de 14 não é uma coisa remota, mas uma presença diária, já há mais de ano.
Pois para fazer a Copa rola uma grana incrível, como não apareceu para hospitais e escolas, bancada pelo governo federal em grande parte, assim como por renúncia fiscal dos estados e municípios. E essa grana, tirante as malversações, que não parecem pouca coisa, faz estádios padrão FIFA, na terra em que não temos saúde, educação e segurança, para ficar apenas no essencial. O senhor e eu, que pagamos saúde, educação e segurança privadas, nem assim as temos em qualidade superior, correto? Imagine os de baixo, os que as têm apenas públicas.

E nem falamos dos elementos primeiros da insatisfação: a corrupção e a negligência, à direita e à esquerda. O que é que pode fazer o cidadão médio, diante disso? Votar em outro partido? Esperar pela próxima eleição? Acreditar no Tribunal de Contas da União, cujo próximo presidente praticou aquela malandragem de datas que deveria ser suficiente para a vergonha mais elementar?

Tempo e espaço
Defendo a singela tese de que as manifestações são, foram, um curto-circuito, que prendeu fogo. Curto-circuito: para que toda a energia implicada no quadro acima descrito se dissipasse, seria necessário haver horizontes largos, perspectiva de longo prazo, cultivo de valores permanentes. Mas vivemos o império do curto prazo e do horizonte estreito: tudo virou um presente eterno.
De seu lado, a classe média foi massivamente para as ruas, toda ela conectada (na hora do bololô, lá estavam todos ligando, tuitando, postando, lendo, se informando, armando), com sua sensibilidade definida pelo padrão internet, que comprimiu o tempo e o espaço ao agora e ao aqui. Todo o passado parece ser acessível a um toque, toda a lonjura aparece na tela; tudo que a história e a geografia acumulam e espalham lentamente parece, na internet, simultâneo e vizinho. Parece.

Do outro lado, o lado dos alvos dos protestos, digamos genericamente os poderes constituídos (executivos, legislativos, judiciários), mas igualmente as instituições encarregadas das longas durações (escola, universidade, sindicatos, partidos, a cultura letrada, igrejas), este lado também parece refém do curto prazo e do horizonte estreito, tudo para já, inclusive na negociação com o Além. Não é apenas a atrapalhação nas ações do governo federal, em vista das ruas; é tudo: o Congresso (deliberando hoje e renegando amanhã), o Supremo (deliberando por pressão da mídia), a Universidade (acossada pelo ENEM), tudo parece pautado pelo imediato.

No encontro dessas urgências, velozes como nunca, sem a mediação das importâncias, quase sempre lentas em sua permanência, rolaram as pororocas de junho. Não era a revolução com que alguns ainda sonham, nem era a chegada da Nova Era Digital sinônima de uma suposta liberdade eterna. Era o curto-circuito.

Não sei se a mesma classe média vai voltar massivamente para as ruas (falando nisso, as ruas retomadas pelo passo a pé são uma marca política viva: esta cidade é nossa, nós queremos andar nela livremente, sem medo e com prazer). Grupos ligados a movimentos políticos, de partidos ou não, é claro que voltarão a qualquer hora porque estão aí para isso mesmo (e ainda bem), talvez até convencendo alguns a entrarem na parada de novo. Mas é certo que as manifestações de junho foram uma tentativa, esperançosa, iludida até, de alterar o rumo da palhaçada em que se converteu uma vasta parte da política institucional e de clamar por horizontes amplos e defensáveis. Uma tentativa, talvez a última, antes de cinismo e da indiferença.

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TEXTO 2

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A situação da cultura diante dos protestos de rua

Por Roberto Schwarz


Roberto Schwarz  é crítico e membro do Comitê editorial da revista Margem esquerda: ensaios marxistas, editada pela Boitempo Editorial.


Apresentação preparada para o primeiro encontro do Cultura Atravessa, dia 08 de julho de 2013.
Publicado em 23/07/2013Acesso em 25 de julho de 2013.         



Caros amigos, vou ser breve. É uma grande alegria estar aqui com vocês, tentando tomar pé numa situação que é nova. Até onde sei, há tempos que não aconteciam reuniões como esta, o que torna o prazer maior ainda. Há uma frase de Brecht, acho que no Galileu, que diz que a liberdade é como um cachorro: basta alguém dizer o nome dela, que ela vem logo pulando.
Como muitos aqui, não tenho opinião firmada sobre o rumo que as coisas vão tomar. Não sei se o transporte público, a educação e a saúde – para ficar nas calamidades mais citadas – vão melhorar, nem sei quem vai ser o beneficiário dos protestos. Será o PT, o PSDB, o PMDB, o PSB etc., ou um movimento novo, ou, ainda, um aventureiro? Muita coisa pode acontecer, inclusive nada, e neste sentido devemos estar preparados para resultados decepcionantes. Entretanto, seja como for, para nós artistas e intelectuais é fato que algo de importante ocorreu e que a nossa situação mudou. Essa em todo caso é a minha impressão, mas naturalmente posso estar enganado.
Foi tudo muito rápido. Em duas semanas o Brasil que diziam que havia dado certo, que derrubou a inflação, que incluiu os excluídos, que está acabando com a pobreza extrema, que é um exemplo internacional, foi substituído por outro país muito pior, em que o transporte popular, a educação e a saúde são um desastre, em que a classe política é uma vergonha, sem falar na corrupção. Qual das duas versões estará certa? É claro que todos estes defeitos já existiam antes, mas eles não pareciam o principal; e é claro que aqueles méritos do Brasil novo continuam a existir agora, mas parece que já não dão a tônica. A viravolta, que foi impressionante, com certeza teve um lado midiático, de propaganda eleitoral, visando 2014. Ainda assim, ela é histórica, e vai fazer diferença, particularmente no âmbito da cultura. O espírito crítico, que esteve fora de moda, para não dizer excluído da pauta, tem agora a oportunidade de renascer.
Salvo engano meu, o nosso espírito crítico foi posto para dormir há mais ou menos 20 anos, no começo da década de 90, quando o Brasil entrou para a era da globalização e tomou conhecimento da nova hegemonia do capital, muito mais completa do que tudo que se havia visto anteriormente. Não que durante esse período não houvesse artistas ou intelectuais inconformistas, tentando dar forma artística ou conceitual à sua insatisfação, à sua percepção de que as coisas não são o que parecem. Mas a crítica não encontrava ressonância e ficava parecendo como que ranhetice ou má-vontade isolada, pessoal, coisa de gerações antigas. Na época, explicando que não cabia chamar o seu governo de neo-liberal, Fernando Henrique Cardoso dizia que, ideologias à parte, ele simplesmente fazia o necessário para adaptar o Brasil à ordem da globalização, para a qual não havia alternativa. Em inglês, TINA, as iniciais de there is no alternative. O que se opusesse a isso seria “nhenhenhém” ou “fracassomania”, vocês se recordam dessas expressões dele, que buscavam ironizar os pontos de vista contrários. A bem da verdade, é preciso reconhecer aliás que essa ironia funcionava, pois diante do gigantismo da nova ordem mundial e das perspectivas que ela abria, a resistência crítica parecia mesmo um pouco anêmica, sem pé no curso real das coisas. E ainda a bem da verdade, é preciso reconhecer também que os governos Lula e Dilma, embora com mais acento social, não diferiam de Fernando Henrique neste ponto, na visão cor de rosa do capitalismo, que seria a grande solução, e não um tremendo problema por sua vez.
Enfim, para retomar tudo isso num plano mais genérico e menos pessoal, digamos que o Brasil passou 20 anos imerso no otimismo quanto à nova ordem capitalista, a qual de fato lhe permitiu avançar muito, ao mesmo tempo que criava problemas crescentes, aqui e mundo afora. A cegueira para estas contradições, alimentada pela ideologia marqueteira oficial, pesava como um tapa-olho sobre a inteligência do país, que perdeu contato com o avesso das coisas, sem o qual não existe vida do espírito. Pois bem, a energia dos protestos recentes, de cuja dimensão popular ainda sabemos pouco, suspendeu o véu e reequilibrou o jogo. Talvez ela devolva à nossa cultura o senso da realidade e o nervo crítico, sem falar no humor, que nos seus momentos altos esta sempre teve.
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Ainda este mês a Boitempo lança seu próximo livro de intervenção Cidades Rebeldes: Passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, com textos de Slavoj Žižek, David Harvey, Mike Davis, Ermínia Maricato, Carlos Vainer, Ruy Braga, Paulo Arantes, Silvia Viana, Pedro Rocha de Oliveira, Felipe Brito, Lincoln Secco, João Alexandre Peschanski, Mauro Iasi, Raquel Rolnik, Leonardo Sakamoto, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros.

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Sobre as manifestações de junho, leia no Blog da Boitempo:

Problemas no Paraíso, por Slavoj Žižek

Levantes aqui, ali e em todo lugar, por Immanuel Wallerstein
A direita nos protestos, por Urariano Mota
A revolta do precariado, por Giovanni Alves
Fim da letargia, por Ricardo Antunes
Proposta concreta, por Vladimir Safatle
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TEXTO 1

Publicado em: 19/07/2013 - 03h30 Folha de São Paulo. PETER PÁL PELBART, 57, filósofo húngaro, é professor titular de filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, tradutor de Deleuze e autor de "Vida Capital" *

"Anota aí: eu sou ninguém"

Slavoj Zizek reconheceu no "Roda Viva" que é mais fácil saber o que quer uma mulher, brincando com a "boutade" freudiana, do que entender o Occupy Wall Street. Não é diferente conosco. Em vez de perguntar o que "eles", os manifestantes brasileiros, querem, talvez fosse o caso de perguntar o que a nova cena política pode desencadear. Pois não se trata apenas de um deslocamento de palco --do palácio para a rua--, mas de afeto, de contaminação, de potência coletiva. A imaginação política se destravou e produziu um corte no tempo político. 

A melhor maneira de matar um acontecimento que provocou inflexão na sensibilidade coletiva é reinseri-lo no cálculo das causas e efeitos. Tudo será tachado de ingenuidade ou espontaneismo, a menos que dê "resultados concretos". Como se a vivência de milhões de pessoas ocupando as ruas, afetadas no corpo a corpo por outros milhões, atravessados todos pela energia multitudinária, enfrentando embates concretos com a truculência policial e militar, inventando uma nova coreografia, recusando os carros de som, os líderes, mas ao mesmo tempo acuando o Congresso, colocando de joelhos as prefeituras, embaralhando o roteiro dos partidos --como se tudo isso não fosse "concreto" e não pudesse incitar processos inauditos, instituintes! Como supor que tal movimentação não reata a multidão com sua capacidade de sondar possibilidades? É um fenômeno de vidência coletiva --enxerga-se o que antes parecia opaco ou impossível. E a pergunta retorna: afinal, o que quer a multidão? Mais saúde e educação? Ou isso e algo ainda mais radical: um outro modo de pensar a própria relação entre a libido social e o poder, numa chave da horizontalidade, em consonância com a forma mesma dos protestos? O Movimento Passe Livre, com sua pauta restrita, teve uma sabedoria política inigualável. Soube até como driblar as ciladas policialescas de repórteres que queriam escarafunchar a identidade pessoal de seus membros ("Anota aí: eu sou ninguém", dizia uma militante, com a malícia de Odisseu, mostrando como certa dessubjetivação é condição para a política hoje. Agamben já o dizia, os poderes não sabem o que fazer com a "singularidade qualquer"). Mas quando arrombaram a porteira da rua, muitos outros desejos se manifestaram. Falamos de desejos e não de reivindicações, porque estas podem ser satisfeitas. O desejo coletivo implica imenso prazer em descer à rua, sentir a pulsação multitudinária, cruzar a diversidade de vozes e corpos, sexos e tipos e apreender um "comum" que tem a ver com as redes, com as redes sociais, com a inteligência coletiva. Tem a ver com a certeza de que o transporte deveria ser um bem comum, assim como o verde da praça Taksim, assim como a água, a terra, a internet, os códigos, os saberes, a cidade, e de que toda espécie de "enclosure" é um atentado às condições da produção contemporânea, que requer cada vez mais o livre compartilhamento do comum. Tornar cada vez mais comum o que é comum --outrora chamaram isso de comunismo. Um comunismo do desejo. A expressão soa hoje como um atentado ao pudor. Mas é a expropriação do comum pelos mecanismos de poder que ataca e depaupera capilarmente aquilo que é a fonte e a matéria mesma do contemporâneo --a vida (em) comum. Talvez uma outra subjetividade política e coletiva esteja (re)nascendo, aqui e em outros pontos do planeta, para a qual carecemos de categorias. Mais insurreta, de movimento mais do que de partido, de fluxo mais do que de disciplina, de impulso mais do que de finalidades, com um poder de convocação incomum, sem que isso garanta nada, muito menos que ela se torne o novo sujeito da história. Mas não se deve subestimar a potência psicopolítica da multidão, que se dá o direito de não saber de antemão tudo o que quer, mesmo quando enxameia o país e ocupa os jardins do palácio, pois suspeita que não temos fórmulas para saciar nosso desejo ou apaziguar nossa aflição. Como diz Deleuze, falam sempre do futuro da revolução, mas ignoram o devir revolucionário das pessoas.