quarta-feira, 3 de julho de 2013

NOTA DE PROTESTO CONTRA A VIOLÊNCIA DE ESTADO

Goiânia, 03 de julho de 2013

Olá.

Se fosse possível, gostaria de desejar um bom dia, boa tarde ou boa noite a quem estiver lendo essas linhas. Mas a indignação frente à violência da Polícia Militar de Goiás, ontem, na Cidade de Goiás, no trato com os manifestantes da UEG, imprimem a esses cumprimentos polidos sensações pouco apropriadas ao momento que vivemos.
Estou como professor na Cidade de Goiás, desde o início do ano letivo de 2013, e posso dizer que aquela comunidade acadêmica possui vários professores e alunos que estão lutando por uma UEG com qualidade social. O professor Robson de Moraes e o prof. (e também religioso dominicano) Frei Paulo Sérgio Catanhede (que foram agredidos e presos, ontem) são pessoas íntegras e engajadas, em princípios e em ação, para com a UEG e várias outras causas sociais.
Igualmente os alunos que foram violentados. Esses são parceiros, solícitos, disponíveis e igualmente engajados. Vários deles são bolsistas (de iniciação científica, de PIBID etc) o que nos indica, minimamente, o seu mérito acadêmico e seu compromisso com a sua formação profissional e com a instituição a que pertencem.
Pois ontem, dia 02/07, em decorrência de uma manifestação na abertura do FICA (Festival Internacional de Cinema Ambiental), essas pessoas foram espancadas, agredidas, humilhadas em seus direitos e dignidade humana! Tiveram sua integridade física desrespeitada! Um aluno teve que ser socorrido no hospital! Tiveram seu direito de livre manifestação ignorado (pois resistiram à ordem da polícia para se dispersarem). E não portavam armas (como a própria polícia), pedras ou coquetel molotov, por exemplo. Mas sim, estavam com indignação suficiente para se manifestar publicamente.
Certamente, portavam algo mais perigoso que armas: a inteligência e a coragem de fazer algo pela transformação social, começando por questões pontuais para produzir a melhoria da unidade de Goiás e para todas as demais unidades da Universidade Estadual de Goiás. INCLUSIVE AQUELAS unidades QUE NÃO ADERIRAM À MOBILIZAÇÃO (mas que receberão todos os benefícios conquistados na/pela luta).
Como professor de história, formador de outros professores, não aceito que nossos colegas de trabalho sejam tratados dessa forma. Muito menos nossos alunos. São estudantes, jovens e não podem ter sua vida e sua esperança de futuro tratadas dessa forma.
Já suportamos a prisão do aluno em Anápolis (até onde sei, devido a palavras de ordem que foram consideradas “desacato ao governador”); a prisão dos manifestantes em Goiânia (no dia 20/06, que até onde fui informado pela comissão de direitos humanos que acompanhou os processos, portavam pedras e coquetel molotov. Não quero entrar no mérito da questão da verdade dessas informações ou da legitimidade desses atos, mas, os trago aqui para contrastar com o que aconteceu ontem na Cidade de Goiás). Os colegas estavam em grupo segurando cartazes e reivindicando o que nos é de direito. Pacificamente. É bom frisar.
DIANTE DISSO, NÃO PODEMOS ACEITAR QUE NOSSOS DIREITOS BÁSICOS de integridade física e de livre manifestação SEJAM DESRESPEITADOS pela POLÍCIA MILITAR DE GOIÁS, pelo GOVERNO DO ESTADO (na pessoa do governador eleito e de sua equipe) e nem que isso seja IGNORADO PELA IMPRENSA GOIANA (que não se interessou/noticiou devidamente tal acontecimento).
Por isso, venho a público divulgar essas informações e pedir o APOIO de todos os que lerem essa carta.
Conclamo a todos os colegas das unidades da UEG que ainda não aderiram à greve (apelo para seus valores corporativistas, religiosos, humanitários e o que mais preciso for) para que paralisem as atividades até que o governador se posicione positiva e definitivamente a favor da comunidade da UEG, PRINCIPALMENTE NA DEFESA DA DIGNIDADE DE NOSSOS ESTUDANTES garantindo moradia e alimentação estudantil.
É bom lembrar que estamos em greve, há mais de dois meses, porque não tivemos as reivindicações de casa de estudante e de condições de alimentação para nossos alunos devidamente tratadas por parte do governo, em forma de garantias documentadas no trato desse problema.
Pessoalmente, já estava desacreditado dessa greve. Achei que já se tinha dado o que foi possível acontecer. Pensava que os colegas, principalmente esses que estão à frente da organização da mobilização, mereciam descansar da batalha constante que é o estado de greve. Enfim, que podíamos recuar e nos prepara para enfrentamentos futuros.
Diante do que aconteceu ontem, contudo, vejo que estava errado. Precisamos ensinar a nós mesmos como devemos ser tratados pela Polícia e pelos administradores da coisa pública. Quero que toda essa repulsa e revolta que sinto agora dentro de mim, desencadeadas pela atitude que a polícia militar desse estado (e os demais responsáveis por ela) contra a dignidade de nossos colegas alunos e professores de Goiás, seja o alimento que faltava para a organização social.
Que a dor física e moral sentida por esses companheiros, seja nosso alimento para continuar acreditando na causa dessa greve bem como em toda forma de organização social.
Enquanto escrevo essas linhas não consigo conter a emoção, nem meu pensamento que está junto desses colegas, professores e jovens alunos, nos quais a  individualidade reinante em nosso tempo bate em suas caras e corpos. Minhas mãos estão geladas, como sempre estiveram nos momentos mais importantes de minha vida.
A desgraça da História serve para nos mostrar que, enquanto população e enquanto indivíduo, não podemos nos calar diante da violência de Estado e de seus fascismos. Os políticos são SERVIDORES da população! O seu poder reside na população! Isso deve ficar bem claro para o bem geral.
A violência contra os professores e estudantes ontem na Cidade de Goiás deve ser transformada em alimento para quem já estava à frente da mobilização, para os desanimados, para os colegas que ainda não aderiram à greve (no sentido de os fazer refletir sobre a necessidade, a importância e o poder da mobilização social, principalmente, porque os momentos de reivindicação são uma síntese a nos mostrar como o Estado nos trata), bem como para os demais funcionários da administração central da UEG.
O que a reitoria da UEG fará em relação à forma violenta como a Polícia Militar, representando os interesses do Governo do Estado de Goiás, trataram nossos estudantes? Afinal, estamos na rua, ainda, para ter casa e restaurante universitário, para nossos alunos que são, em sua maioria, trabalhadores. E por esses motivos, dentre outras reivindicações, ontem eles sofreram a violência policial na Cidade de Goiás.
Esse acontecido é agora um fato político que deve favorecer a reivindicação pela moradia e alimentação estudantil em Goiás.
Como membro da comunidade da UEG, peço o apoio de quem estiver lendo esse texto, seja por meio da produção de notas e moções de apoio (pessoais ou institucionais) à nossa greve, bem como na divulgação desses fatos nas redes sociais. MAS, PRINCIPALMENTE, SE FAZENDO PRESENTE NA MANIFESTAÇÃO DE AMANHÃ. 
SOMOS OBRIGADOS MORAL-CÍVICA-CIDADÃ E HUMANAMENTE, A NOS FAZER PRESENTE 



Dia: 04/07 (amanhã, quinta-feira)
Local: Av. Independência esquina c/ Av. Goiás, em Goiânia.
Horário: as 14h
Caminharemos em procissão até o Centro Administrativo do Estado (Palácio Pedro Ludovido Teixeira) na praça Cívica
 


#VemPraRua #UEGgreveOficial


Peço o apoio de tod@s na divulgação dessas informações e esperamos sua presença: amig@s, colegas, a população em geral; todo aquele que é a favor de uma sociedade com mais condições de igualdade de oportunidade para todos (porque é isso que a educação pública deveria garantir).
Não é certo, cada pessoa que somos, aceitar esse tipo de tratamento por parte da Polícia Militar de Goiás, nem aceitar passivamente os demais valores que orientam o governo do estado na forma de administrar o bem público. Mais que nunca, é hora de defender o respeito à dignidade humana.
Nosso corpo é nosso poder!
Até amanhã!
Euzebio Fernandes de Carvalho
Professor de Didáticas, Práticas e Estágios em História
Universidade Estadual de Goiás