domingo, 27 de janeiro de 2013

Brox(ch)adas, revolucionariamente, cinematográficas

tumblr_lpzfg390wU1qcynu4o1_500[Vou seguir o conselho do Houaiss e substituir o "broxante" do título original por Brochante]

[segue o ensaio “O fantasma da educação nas barricadas do cinema”, de autoria de Leonardo Carmo, publicado originalmente no sítio do Jornal Opção (27/01/13) http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/o-fantasma-da-educacao-nas-barricadas-do-cinema  A poética de Carmo mostra as características estéticas de nosso tempo: as referências a outras obras e as transtextualidades. A vontade de criação artística do autor é derrubada pela vontade analítica da forma ensaio. No sertão que fica entre os dois extremos, somos brindados com os trechos que negritei e outros que a minha estupidez (Sim, Roberto, você estava certo) – não me deixou ver. Senti falta, na relação dos filmes libelos encarnados, da referência ao “Socialism” de Godard. Entre os filmes citados, e assistidos por mim, acredito que o mais forte em sua crítica (mas não ao capitalismo e sim ao socialismo soviético) é “Para sempre Lilya. Aliás, essa película foi tema de análise, em capítulo de livro organizado por um ex e sempre professor David Maciel, sobre a Revolução Russa (as referências completas me escapam pois minha biblioteca vive vilipendiada por eu ser um professor viajante. Por conta do trânsito frequente entre Goiânia e Porangatu, alguns livros estão sempre “em outro lugar”. Quando assisti “Para sempre Lilya” a minha existência colonizada de subdesenvolvido nas margens do capitalismo tardio foi esfaqueada. acho que impacto maior somente senti com “Irreversível” ou “Garotos não choram”. Os filmes “Para sempre Lilya” e “Irreversível” me foram apresentadas pela amada, culta, jovem e já famosa historiadora Lyvia Vasconcelos Batista, quando ainda estávamos no mestrado em história da UFG. A mensagem de que Lilya nos traz, poderia ser irresponsavelmente resumida assim: só a morte nos salvará. entendam: a morte para quem não acredita em vida após a morte. pense! isso é uma coisa, deveras, fudida de se pensar (e acreditar). A vida deixou de ser melhor que a não-vida. Para acabar com tudo, os personagens principais de “Para sempre….” são: uma criança e uma jovem. Como sabermos, quando os cineastas querem falar do futuro, eles metaforicamente, usam as crianças e jovens. O outro filme citado por Carmo é “Os sonhadores”. assisti a esse filme por conta de minha admiração por seu diretor: Bertolucci fritou minha mente com “Sob o céu que nos protege”. uma história que até hoje me faz querer entrar nú em plena floresta. Essa é minha referência ao poema de Cora Coralina que conta a história do índio que foi civilizado. um dia, em seu trabalho de guarda do Palácio Conde dos Arcos (ou outra coisa que o valha), numa certa tempestade, um trovão rasgou o céu. o índio, num supetão só, rancou sua roupa e se embrenhou no mato. nunca mais foi visto. Para mim, “Sob o céu que nos protege” é o tal trovão de Cora, em suspensão. Potência descivilizadora que somente a natureza faz com a cultura em nós. Depois disso, Bertolucci me fez imaginar a Europa como terra de sexo chique e libertário. Isso foi com “Beleza Roubada”. Por fim, voltando ao filme citado por Carmo, “Os sonhadores” vi o início de uma moda entre os filmes alternativos (se os posso chamar assim): um desfile de picas duras e terapeutizadas em suas vergonhas na grande telona. Mas, nesse filme como em “Edukators”, a tese é que a “vontade de partilha” (risos) da ideologia socialista não consegue derrubar as barricadas da moral sexual-burguesa-cristã-masculinas presente em nossa sociedade. aliás, “a sociedade” que existe entre os personagens dos dois filmes não consegue dividir uma buceta. ok, tá certo, não seja eu sexista: não conseguem dividir a dona da buceta. os machos de plantão que querem mudar o mundo capitalista são vencidos pela cultura naturalizada do sexismo. sua sociedade acaba no justo momento em que se interessam pela mesma mulher. não há vontade de mudar o mundo que consiga mudar os instintos fatais? Por isso considero que os dois filmes, em especial o Edukators, é um filme conservador. ao terminar de assistí-los, a minha tesão fílmica tinha broxado. Fiquem com Leonardo Carmo porque “hoje é só amanhã”]19871009.jpg-r_160_240-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxx    

 

 

O fantasma da educação nas barricadas do cinema, por Leonardo Carmo

edukators   O cinema como escrita política da história materializou películas de aceitação massiva  como  “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci, e “Edukators”, de Hans Weingartner, memórias fílmicas de pulsões libertárias, forjadas nas usinas do delírio e do desejo. Bertolucci — Maio de 1968 — e Weingartner — União Europeia — mergulham no mundo do sonho da cultura de massa, e discutem, no passado e no presente, o problema da ação que pode desencadear o despertar coletivo como sinônimo de uma conscientização revolucionária de classe.

Nessa onda, “Amantes Constantes”, de Philippe Garrel, 2005, uma experiência cinematográfica radical, rememora Charles Baudelaire e Thomas de Quincey. E ninguém melhor que Louis Garrel — objeto de mostra no Centro Cultural Banco do Brasil, 2013  — o ator fetiche do cinema francês — para dar corpo e alma a esse mix de Gandhi-John Lennon-Sade-Slavoy Zizek.  No filme, em 1969, um grupo de jovens dedica-se ao consumo do ópio, após ter vivido os acontecimentos de 1968. Um romance intenso nasce dentro deste grupo entre dois jovens que se conheceram durante a revolta. Depois  que a classe operária foi ao paraíso, chegou ao poder, comprou celulares e carros a prestação, a revolução parece ter colocado pantufas, sentando-se no sofá, curtindo a programação da MTV ou a pornografia disponível na web. Amor e revolução transformaram-se em fumaça do ópio ou do consumo.

Mas quem joga a história e a consciência de classe em uma mina é Danis Tanovic e o surrealismo belicista — surrealismo para quem patrocina as guerras, não para quem morre nelas — com “Terra de Ninguém”, 2001 — não o da odisseia no espaço mas o da laranja mecânica da guerra —  sobre o conflito nos Balcãs entre bósnios e sérvios. 
Jule    A coca-cola da China configura nova estética. Essa estética se materializa em “Cosmópolis”, 2012, de David Cronenberg.   Mas antes que o cineasta de “eXistenZ”, defina que a nova unidade monetária é o rato, Wolfang Becker  também joga György Lukács no cemitério dos sonhos. “Adeus Lênin”, 2002, com o qual “Barbara”, de Christian Pet­zold, 2012, dialoga. O tema do filme pode-se dizer são os campos de reeducação socialista. Aliás, a versão fílmica do socialismo não é a mesma dos manuais.
Revivendo a visita do fantasma da revolução ou do que dela sobrou nas barricadas do cinema, e tão explosivo quanto Bertolucci, Weingartner e Garrel, só mesmo Lukas Moodysson, em “Para Sempre Lilya”, 2002, os bisnetos da Revolução Russa na lama do socialismo em um lugarejo perdido da Estônia. Para o diretor, só os anjos sobrevivem ao lamaçal soviético. Talvez este filme possa ser analisado como o anjo da história das teses de Walter Benjamin. Uma tempestade empurra o anjo para o  futuro e no presente ruínas chamadas de progresso se acumulam diante dos seus olhos. Em que medida a história no cinema é diferente — qualitativamente da história escrita? Ou, o que aprendemos com a história em sua versão cinematográfica?
tumblr_lwwpru5RUi1qg1naao1_500  Walter Benjamin  discute o papel transformador do cinema a partir do ensaio “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”, 1936, tido em geral como uma afirmação da cultura de massas e das novas tecnologias por meio das  quais ela é disseminada. No texto, Benjamin enfatiza o papel cognitivo e, portanto, político da experiência cultural mediada pela tecnologia, privilegiando particularmente o cinema. Aplicar as teses do ensaio atento ao conceito de arte cinematográfica se  insere na seara cognitiva não só no  cinema de Roberto Rossellini ou Alexander Kluge, mas no de  Steven Spielberg e sua aventura em “O Parque dos Dinossauros”. Mesmo que o dito filme comercial não chegue às nuvens de uma arte superior, contribui com uma visão crítica do mundo da ciência e o paradoxo é um produto da cultura de massa cuja representação, imediatamente vista como alienada, critica a alienação. O ensaio de Benjamin abre perspectivas para a análise fílmica trilhando pela derrubada do muro de Berlim, entre os escombros do socialismo e a estética da nova ordem mundial.  Um dinossauro a favor da revolução é uma força considerável. Um blockbuster na crítica social? Em “Ornamento da Massa”, Siegfried Kracauer (Editora Cosac Naify, 2009)  analisa historicamente a relação das classes médias e o cinema como vetor cultural na era da reprodução da obra de arte.  Ou aquilo que Benjamin chama  de valor de exposição.
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Quem dirige “Meia Noite em Paris”, 2011, é Woody Allen e não Dziga Vertov. E a Paris das barricadas de “Amantes Constantes” é a Paris charmosa dos anos 1920, memórias de um diretor americano, em um filme velho, para um público que à ousadia do sonho acomoda-se nos clichês do filme charmoso, digestivo. A Paris de Jean-Marie Le Pen e não a do “Fantasma da Liberdade” ou de “A Chinesa”. Nem Godard ou Buñuel. Nem Leos Carax de “Holly Motors”, 2012, dialogando com as limousines de “Cosmópolis”. A função social das limousines: túmulo da arte e do capitalismo.
Depois que as barricadas do desejo foram vencidas pelas bombas de gás lacrimogêneo, o futuro não será mais dominando pela paz e pelo amor de uma sociedade sem classes. O dinossauro de Spielberg é uma metáfora dessa nova ordem. As colunas de fogo da poesia de Charles Baudelaire substituídas pelas cercas elétricas do “Jurassic Park”. O que se materializa não é a revolução,  mas o monstro da razão que domina a natureza. Goya, antevisão das imagens digitalizadas.
Nessa perspectiva,  a arte cinematográfica, e não necessariamente o cinema de arte,  deve criticar a chamada economia global, como no belíssimo “Um Alguém Apaixona­do”, de Abbas Kiarostami,  2012, ro­dado em Tóquio  e cuja narração pode se dar em São Paulo ou Goiâ­nia.  A metáfora cinematográfica: e­du­­cadores buscam formas de combate onde a esperança de transformação possa ser operada para além do livro vermelho ou das velhas or­todoxias políticas.
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Esse cinema de maciça força poética parece manter aquele desejo de despertar do mundo do sonho de si mesmo. E mantém  vivas as ideias e práticas situacionistas de Guy Debord, a quem essas fitas poderiam ser dedicadas. Esses filmes mostram que, se a cultura de massa é uma fonte de fantasmagoria do mundo social, é também uma fonte de energia coletiva capaz de superá-la.

  Leonardo Carmo é mestre em Educação Brasileira pela UFG