quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O palhaço

[Esse foi um dos filmes mais esperados por mim no ano de 2012. mas, minha expectativa sufocou a experiência de assisti-lo. não me estenderei muito, mas, acho que o motivo principal foi o uso de um recurso que me pareceu exagerado. em vários momentos a cena é construída como um fotografia posada, chapada, frontal. nelas, a câmera não se move. isso incomodou minha assistência. não sei bem porque (do meu incômodo ou do uso do recuso pelo diretor). mas, um ponto positivo é a mistura dos gêneros cinematográficos. um drama travestido de comédia. outro ponto a ser destacado é o cuidadoso trabalho artístico do filme juntamente à fotografia. segue o texto]



 
FORA DO PICADEIRO, texto de Nashla Dahas (sobre o filme O Palhaço. Direção: Selton Mello, Brasil, 2011).
 

Certa vez Charles Chaplin afirmou que num filme o que importa não é a realidade, mas a imaginação que se pode extrair dela. Biografias e autobiografias, relações de amor e de violência, contos que se cruzam, acontecimentos políticos, ou metáforas da vida cotidiana, os filmes são sempre belas maneiras de se contar uma história. E elas podem ser baseadas em vestígios do real, ou ser inteiramente fictícias, atualizações de algo que já foi feito, ou exemplificações de idéias ou situações. Em todos os casos, essas histórias nascem de um forte desejo de dizer alguma coisa a alguém, de causar uma reação, partilhar um sentimento, verificar a dimensão pública de um problema aparentemente individual. Sua natureza é sempre relacional e sua eficácia depende em grande medida de um elemento muito especial: a linguagem.
Estudiosos dedicam uma vida inteira à elaboração de suas teses, com as solicitadas justificativas e relevâncias acadêmicas; três artigos ao ano é o mínimo que se exige de um candidato a mestre ou doutor. Sociólogos, historiadores, antropólogos e cientistas políticos freqüentemente não são ‘in’, “descolados” e “descontraídos”, eles carregam o peso da realidade, do suposto conhecimento, da íntima convivência com as denúncias da promiscuidade humana. Os títulos, contudo, vão engrossando o currículo e ao mesmo tempo corroendo, pouco a pouco, e de forma quase imperceptível, todas as suas possibilidades de comunicação mais ampla. Abre-se, nesse meio tempo, um profundo abismo que os separa d’O Palhaço.
Para fins práticos, todo mundo sabe o que é um palhaço, conhecemos seus trejeitos, a caracterização inconfundível, dos longos sapatos ao nariz vermelho, e até a ironia de sua tristeza interior já se tornou um clichê. Há, inclusive, aquele que já vem com uma lágrima pintada no rosto, como se todos os seus sentimentos já estivessem previstos em uma identidade recorrente no imaginário coletivo. O desenho apenas nos poupa o trabalho de perceber suas fragilidades e emoções.
O filme
Se o personagem é batido, o tema também não é diferente: trata-se de uma narrativa bastante simples e cronológica da crise de identidade que leva um homem nascido e criado no circo a questionar sua vocação. Ora, é perfeitamente possível que, em algum momento, todos nós tenhamos dúvidas sobre qual é nosso lugar e papel nessa história chamada vida. De fato e tal como Pangaré, interpretado pelo próprio Selton Mello, espera-se que amadureçamos, eventualmente mudamos os rumos do destino, mas logo voltamos a crer na vida real, no que ela tem de mais precário e determinista, até que a crença se perde e a vida volta ao normal. “O gato bebe leite, o rato como queijo, e eu... eu sou o palhaço”, conta Puro Sangue, vivido por Paulo José, o dono do circo Esperança.
Mas não é o ineditismo do tema e muito menos a formatação de sua proposta em algo supostamente vendável - agradável ao que seus organizadores podem chamar de grande público -, que torna a história tão envolvente. É, por um lado, sua preocupação com o universal, com aquilo que as especificidades de uma história cultural cada vez mais individualista tem tornado menos importante. Trata-se do essencial em qualquer humor: a capacidade de fazer piada sobre si mesmo, de expor as fragilidades do humano, da profunda necessidade de fazer alguém feliz. Por outro lado, é impressionante a despretensão do filme.
Cheio de simbolismos que envolvem a construção da identidade, o autoconhecimento, a satisfação pessoal, as amarguras possíveis “nas melhores famílias”, os sonhos de consumo e de um mundo melhor... Há um leque imenso de possibilidades reflexivas abertas ao telespectador. Caberá a ele escolher se busca divertir-se com uma história bem contada, comover-se com a atuação dos personagens, refletir sobre questões e crises existenciais, ou extrair possíveis “mensagens” das entrelinhas.
Eis uma forma admirável de fazer história: quanto mais importante é um assunto, e O Palhaço discute aquele que é hoje um dos mais importantes do mundo – a busca incessante pela felicidade numa realidade sem senso de possibilidade – mais simples é a sua abordagem, menos ambiciosas são suas intenções, para que todos possam apreciá-lo e compreendê-lo.
Benjamin de Oliveira (1870-1954)
Benjamin de Oliveira (1870-1954)
Alusão ao primeiro palhaço negro
Quando as cortinas se fecham, Pangaré se torna Benjamin, possível alusão a Benjamin de Oliveira (1870-1954), o primeiro palhaço negro no Brasil e, segundo alguns pesquisadores, o primeiro palhaço negro do mundo. Benj, como é chamado, é o responsável pelo funcionamento do circo; ele cuida da burocracia de uma empresa sem papel algum, trata do acerto de contas com os prefeitos das pequenas cidades por onde passam, conserta o carro que os transporta, cuida da montagem da lona, dos adiantamentos pedidos pelo músico do circo, de um sutiã tamanho GG para a mulher barbada, do calor que faz no interior dos dormitórios improvisados... São tantas as necessidades práticas imperativas, e elas não permitem desconsideração, tomam todo e qualquer espaço reservado à imaginação, cujo mais largo alcance é agora um enorme ventilador, sonho de consumo imediato capaz de varrer as angústias da queimação interna e provocar uma breve sensação de alívio.
O filme não tem data, localização exata, quase um road-movie, o dinheiro tem cotação desconhecida, a idade mais identificável é a da única criança que acompanha a trupe, Benjamin não possui RG, CPF, ou comprovante de residência, sua certidão de nascimento está aos pedaços. Não há menções ao passado, como se a vida tivesse sido sempre assim e fosse absolutamente impossível pensar em um futuro muito diferente disso. Retrato tragicômico de um personagem que vem cumprindo desde a Antiguidade o papel de interpretar o drama do real através do humor, movimento indispensável ao bem estar de qualquer um.
A capacidade de rir das contradições e dos conflitos do dia a dia sempre foi uma forma de controle e de estabilidade. Na Idade Média, por exemplo, a cultura do riso era associada às festas populares, momentos de expressão de uma liberdade impossível de ser alcançada em outra esfera social. Durante a época moderna, quando a razão humana vai se sobrepondo às leis divinas, o riso ganha tons mais satíricos, seu autor não se inclui na brincadeira, na verdade, opõe-se a ele expressando cada vez mais o distanciamento entre o sonho e o cognitivo, o ético e o político. O sentido do palhaço aproxima-se daquele cuja piada se dirige contra alguém, contra uma pessoa isolada, contra uma situação da qual ele mesmo não quer fazer parte. Perde-se a dimensão histórica e a preocupação com o comum, com o social e com o universal. Perde-se o sentido da graciosidade da comédia, cada vez mais agressiva, explícita, desqualificadora da vida e do outro.
Nada disso é novidade, como também não o é o crescente desencanto com esse projeto de moldar o mundo a partir do racional. E sobre isso o crescimento da psicanálise e dos antidepressivos como soluções individuais para a vida moderna talvez possam dizer alguma coisa. A questão apaixonante do longa O Palhaço é a sua proposição de um caminho alternativo em termos de linguagem e de análise das relações humanas. Em oposição ao riso como “lubrificante social”, o filme retoma os sentimentos universais como espaços privilegiados para o entendimento do mundo, e reconecta o espectador com o lado mais ingênuo e simples da vida.