domingo, 27 de janeiro de 2013

Comédia romântica (só se for para os homens) ("Ruby Sparks, dir. Dayton & Faries, 2012)

[Recentemente, assistimos ao filme “Ruby Sparks: a namorada perfeita” (2012). (Nada como férias para fazermos - e dizermos - isso sem o sentimento de culpa de todo trabalhador)

images1 
O filme foi dirigido pela dupla Jonathan Dayton e Valerie Faries que realizaram o maravilhoso “Pequena Miss Sunshine”. não falarei sobre Ruby Sparks a partir da expectativa criada em mim pela sequência de “Miss Sunshine” para não cometer injustiças com os realizadores. Cada obra deve ser apreciada em si, no seu momento. Esse lance de “criar expectativas” que devem ser saciadas pelas sequências produzidas pelo mesmo artista é uma doença psicológica alimentada pela retórica do novo, tão cara aos nossos tempos modernosos.
images2 
Talvez o maior trunfo da história de Ruby seria o tema central do filme: realidade e ficção como duas dimensões da mesma experiência. mas, o desenvolvimento da história não fez jus ao mote central. aliás, uma bela e complicada tese, não? acontece que a personagem nerd e tímida do escritor jovem e de reconhecido sucesso, para superar o trauma causado pelo fim de um romance, é aconselhado por seu psicanalista a fazer um dever de casa. O escritor cria então uma outra personagem: a tal Ruby Sparks, “para o seu bel prazer”, como diz aquela música oitentista. das páginas datilografadas, a personagem nasce para a vida real. então, o romance imaginado pelo escritor e sua personagem toma os rumos ordinários de todas as relações de amor: (des)encontros, dilemas, conflitos. o ápice do desejo masculino em criar a sua mulher ideal beira ao prazer sádico quando a “verdade” é revelada para a namorada: ela não passa de uma invenção literária de seu namorado escritor. quando então, ela entende que é uma criação literal (risos) e que atende a todos os seus comandos, por escrito, tudo se desmorona (tipo a Maysa cantando “meu mundo caiu”). acho que esse seria o momento perfeito para explorar o dilema de toda mulher que vive (por escolha ou não) na história/vida de seu namorado. seria a deixa perfeita para uma puta crítica de comportamentos relacionados às identidades de gênero e a histórica submissão feminina provocada pelos falos de todos nós. mas isso não acontece… quem quer se libertar de seu criador e ter que pagar o preço de viver a liberdade? (há algo mais necessário que uma amarra invisível?) no filme, depois que a relação termina, há um novo recomeço, com uma proposta de mais “liberdade” para a namorada (o tipico happy end hollywoodiano). ou seja, ele o personagem escritor do filme, seus realizadores e nós, enquanto sociedade, insistimos no erro de não fazer a crítica devida. a mulher continua sendo uma personagem dos masculinos. há que nos rebelar, todos. Que venham mais Tati’s para quebrar o barraco desses pendões verdes da esperança desbotada mas ainda retesados pelo prazer dos domínios]
xlarge